Vitrines

O Shopping é o Villa Lobos, que Walmir, Bruno e eu chamamos simplesmente de “o clube”. Urbanóides empedernidos, não trocamos o tíquete de estacionamento do Villa por um título do Pinheiros. O shopping é mais divertido. O centro do clube — e nosso ponto de referência e encontro — é a livraria Cultura; sem dúvida a melhor, mais completa e mais charmosa do país. Antigamente ainda disputava o título com a Ática, ali em Pinheiros. Depois a Ática foi vendida ao grupo francês Fnac, perdeu o élan e virou uma megaloja de quinquilharias eletrônicas de luxo.

Foi vagabundando pelos corredores do clube que eu lembrei das vitrines da minha infância e adolescência.

Vasculhei minha memória e encontrei a primeira gaiola de cristal a aprisionar um encanto meu. Não era propriamente uma vitrine, mas eu era muito pequeno e o balcão envidraçado do bar era enorme. Ficava em São Vicente, na Praça Barão do Rio Branco, em frente ao ponto do bonde 1. Meu pai sempre entrava lá. Não sei se para uma birita ou um maço de cigarros. Na vitrine, peixinhos de chocolate embrulhados em papel alumínio colorido me hipnotizavam. Eu sempre escolhia o azul, e sempre ganhava um. Que desembrulhava com cuidado para não estragar a fina folha reluzente. Depois o mundo passava correndo pelo bonde aberto, o vento aliviando o calor do verão, e eu parado, suspenso no tempo e na noite, tentando adivinhar cada rua pelos reflexos azuis na minha mão.

Mais tarde, muito mais tarde, veio a vitrine do Bazar Boa Sorte. Rua Martim Afonso, quase na Biquinha. O japonês vendia artigos de pesca, que numa mistura improvável repartiam o espaço com os aeromodelos da Casa Aerobrás. Os parcos tostões que eu conseguia poupar eram, quase todos, gastos ali. E eu passava por lá todos os dias, apenas para ficar parado na calçada um tempão, sonhando um dia comprar todos aqueles aviões que o homem pendurava com cuidado com invisíveis linhas de pesca. Os mais caros, como o Cacique e o Cirrus, estavam tão distantes dos meus suspiros como uma Ferrari.

Mas foi quando finalmente comecei a trabalhar — office boy de um cartório em Santos — que explodiu o número de lâminas de vidro a interpor-se entre a felicidade e eu. Eu tinha doze, treze anos, e minha missão era andar pela cidade. O microscópio Towa na Ótica Santista custava todo o meu salário: 25 cruzeiros. E as livrarias! Na Martins da Rua Riachuelo eu parava para folhear livros de ciência: Maravilhas da Química, O Átomo, O Cérebro Eletrônico. Foi lá que aprendi que açúcar e carvão são quase a mesma coisa, que átomos de Hélio não se misturam, que computadores contém portas que decidem entre zeros e uns.

E havia, claro, as mais excitantes, aquelas que continham o que o dinheiro não podia comprar. Numa papelaria da Amador Bueno, um exemplar de A Carne, de Júlio Ribeiro, expunha o desenho de uma mulher nua e linda. Na casa Leipzig, uma pequena estatueta de porcelana revelava as formas sensualmente mágicas de outra. Estranhos os pensamentos que me atingiam ao vê-las. Sonhava um dia fazer coisas incríveis com uma mulher assim. Queria, e sabia que ia ter uma para mim. Uma que tirasse despudoradamente a roupa. Mas, êpa! Havia um terrível problema: o sobrenome. Naqueles anos, os pré-adolescentes não eram muito bem informados sobre essas coisas de homem e mulher. E se eu encontrasse a mulher da minha vida, uma disposta a partilhar comigo suas intimidades, e ela não fosse uma Dias? Porque eu só poderia casar com uma Dias. Meu pai fora Dias, como minha mãe. Tio Neco era Oliveira e Silva, igualzinho Tia Eliete. Tio Daniel e Tia Gilda eram, ambos, Ribeiro. Decidi que se eu a desejasse muito mesmo iria quebrar as regras, tornar-me um paria, mas fugiria com ela para um lugar onde pudéssemos pecar em paz.

Alguma coisa afugenta minhas lembranças e o menino escorrega para dentro de mim outra vez. Um saca-rolhas alemão Zack na vitrine da Fina Estampa chama a minha atenção. Estou precisando de um. Olho o preço. Não é tão salgado assim, para uma peça tão bonita. Apalpo meu bolso. A carteira esta lá, com o cartão e o dinheiro.

Então fico triste. Assim não tem graça.