Visita inesperada

O visitante pôde ver de imediato que o quarto era uma bagunça. À esquerda, um guarda roupas por cujas frestas das portas entreabertas deixavam ver-se mais livros, cadernos e papéis do que… roupas. À direita uma cômoda-escrivaninha-laboratório. A cama não conseguia mais esconder as pilhas de revistas que teimavam em escorregar pelo soalho de tacos revestidos com Synteco.

O homem inadvertidamente cutuca com o bico do sapato uma delas: as outras vem junto. O que é aquilo com foice e martelo na capa? Ah!, é só a primeira edição de Veja. Tecniramas, Mecânicas e Eletrônicas Populares. Noutra pilha uma Fairplay semi-encoberta deixa ver um belo traseiro na capa. Ítala Nandi. Sabe lá o que se esconde embaixo do colchão…

As prateleiras nas paredes cheias de coisas esquisitas. Muitas válvulas, circuitos eletrônicos montados e outros em franco processo de desmanche. Modelos de aviões caprichosamente montados. Uma coleção de pedras onde as piritas – muitas – brilhavam ao solzinho que ainda entrava pela janela.

Ao contrário de um quarto comum de adolescente, as paredes era nuas. Nada de pôsteres, nem fotografias nem flâmulas, tão populares à época.

Os livros não tinham lugar para ficar: estavam por toda a parte. E diziam pouco do gosto literário do habitante daquele lugar. ZZ7. Giselle, a espiã nua que abalou Paris. Shakespeare (A Tempestade, a Comédia dos Erros, Dois Cavalheiros de Verona). Asimov, Arthur Hailey, Stendhal e uma edição de Iracema que parecia nunca ter sido tocada. Os títulos em inglês mais pareciam escolhidos por um maluco em um sebo qualquer: Thinking Machines, Principles of Radio Propagation, The ARRL Handbook, Basic Electronics for Scientists misturados com The Great Synthesis (Pietro Ubaldi), The Catcher in the Rye (Salinger) e The Free Masonry Secrets. Tinha até alguma coisa em espanhol: Máquinas Calculadoras de Dirección, Radiotecnia (Trabajos de Laboratorio), Don Quijote.

De costas para o recém-chegado, um garoto magricela, cabelos negros, densos e desgrenhados estava debruçado sobre alguma coisa que, de tão interessante, o isolara do ambiente a ponto de não perceber o intruso.

O homem senta-se na cama. Acima do peso recomendado para sua meia-idade, o estrado range em protesto, denunciando afinal sua presença.

— Quem é você?

— Um amigo da família.

O jovem vai até a porta e espicha o pescoço. Ouve a voz de sua mãe tagarelando na cozinha com o João. Aquele sujeito deve ter vindo junto com eles, talvez para o jantar.

— O que você está fazendo? – pergunta o magricelo.

— Um descravinador.

O homem faz um esforço para conter a gargalhada. “Mas- pensou – se ele quer brincar eu também sei como”. Aproxima-se da bancada improvisada. Um emaranhado de componentes eletrônicos revela-se um dispositivo bem mais prosaico ao seu olhar treinado.

— Eu também conheço descravinadores. Mas isto me parece mais um receptor super-regenerativo. E você está tirando espiras da bobina osciladora. Que frequência quer alcançar?

O garoto não parecia decepcionado por ver frustada sua brincadeira. Antes pareceu olhar o visitante com outros olhos. Talvez João e mamãe tivessem amigos inteligentes, afinal.

— Sete megahertz. Mas o capacitor ainda está um pouco alto, e eu não tenho outro. Não quero um Q muito largo.

O homem olhou em volta.

— Há muita coisa aqui para você desmontar. Com certeza vai achar um que sirva.

— O senhor gosta de eletrônica?

— Gosto de muitas coisas. E também montava algumas coisinhas quando tinha a sua idade. Você quer ser engenheiro?

— Não.

Uma resposta direta. O homem toma nas mãos um dos pequenos aviões. Um Mitchell B-25.

— Piloto de aviões, talvez.

— Talvez. Não resolvi ainda. Mas seria legal. E depois, eu gostaria de conhecer outros países. Mas também posso fazer isso sendo um cientista.

O homem encara o jovem. Parece querer dizer alguma coisa séria mas depois sorri, como se mudasse de idéia.

— Olha, você não tem que se preocupar muito com isso. Você será exatamente o que quer ser. Isto aqui – fez um gesto largo mostrando o quarto – é só o começo. Siga o seu caminho. Meta o nariz onde quiser meter: você aprenderá. O mundo vai mudar e você mudará com ele. Às vezes até mesmo antes dele.

O menino sentou-se ao seu lado, numa atitude rara. Não costumava aproximar-se de estranhos, mas o homem infundia-lhe uma forma peculiar de segurança. Parecia-lhe mesmo improvavelmente familiar.

— Você verá muitas das coisas com que sonha hoje. Robôs, computadores que caberão no seu bolso, bibliotecas inteiras guardadas em discos de plástico, telefones no seu relógio de pulso, naves espaciais. Você verá o Univac tornar-se realidade, e poderá acessá-lo de qualquer lugar: do seu quarto, do seu carro, de um avião.

As palavras agora se tornavam mais sérias, mais carregadas de significado. Continuou:

— E principalmente não tenha medo de sonhar. Mas não seja apressado com os seus sonhos. Eles vão se realizar a seu tempo. Todos. E você vai encontrar a quem amar e que lhe ame. Mais de uma vez — riu. Aliás – o homem estava quase gargalhando agora – você vai deitar-se com muitas garotas bonitas também. Nada de pressa, nada de pressa.

Enxugou as lágrimas que o riso lhe provocara antes de concluir.

— É verdade! Esqueça a espanhola para quem você anda escrevendo aqueles poemas meu rapaz. Vem coisa muito melhor por aí!

O menino fica vermelho de repente. Quem era aquela figura esquisita, aquele homem de barba e cabelos brancos, que sabia do que escrevera ou deixara de escrever? E por que pensava saber tanto sobre o seu futuro? E que sabia sobre o descravinador?

— Olha, eu sei que o senhor é amigo da minha mãe, mas…

Passos. João se aproxima e interrompe a pergunta com seu vozeirão:

— Ernesto, vem jantar! Sua mãe fez o peixe que eu trouxe.

O menino levanta-se e sai do quarto. Depois estranha que João não houvesse dado a mínima à visita, como se o homem não estivesse ali.

Volta-se. O visitante está de pé na soleira. Mete a mão no bolso e de lá tira um pequeno aparelho, do tamanho de um maço de cigarros. Levanta uma espécie de tampa, dirige ao menino um sorriso matreiro e, aproximando o dispositivo da boca, fala:

— Senhor Spock, ativar.

E desfaz-se no ar ante os olhos incrédulos do menino.

 

-oOo-

 

A Bia me cutuca.

— Pai, acorda, você está perdendo o filme!

Eu a abraço.

— Então volta um pouquinho pra eu ver o que perdi.

— Credo! Parece que ‘tava em outro mundo!

Beijo minha filha.

— Não filha. Estava só visitando alguém.

E agarramos mais um punhado de pipoca.

 

Ilustração: Arte de Benício, um dos maiores capistas brasileiros