Uma ideia brilhante

(A lembrança deste pequeno episódio me ocorreu por causa da postagem do Flávio Ferrari lá no Prozac, a respeito da minha infância.)

Corria o ano da graça de 1962. Carlão e eu acabáramos de montar um laboratório químico. A vidraria e os reagentes foram comprados por um amigo muito mais velho, lá no Colégio Santista.

Assim como piloto de avião e maquinista de trem, a profissão de químico acendia a imaginação dos meninos da época e nós não éramos diferentes.

O primeiro projeto: descobrir um processo de cromeação não eletrolítico, ou seja: tornar uma peça metálica tão brilhante quanto o pára-choques de um Simca Chambord apenas com a aplicação de um líquido mágico, a frio e em casa mesmo.

A solução foi facilmente encontrada: Hg(NO3)2. Popularmente conhecido como nitrato de mercúrio.

Começamos com as chaves da casa do avô do Carlão. Um pedacinho de algodão levemente embebido em Cromeador Instantâneo, uma enérgica esfregadela e pronto: um objeto absolutamente prateado, brilhante como nada mais no mundo.

Dias depois, já com todos os planos feitos para a fortuna fácil que se avizinhava, o primeiro percalço: as chaves começaram a desbotar com o uso. Adiamos temporariamente a viagem a Nova Iorque e começamos a procurar o terceiro elemento da fórmula: o Fixador Mágico para Cromeador Instantâneo.

Já então o processo havia sido aplicado a muitas chaves, todas elas familiares. Todas elas voltando à vil condição de peças de latão nú.

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Foi quando foi abordado por dona Adélia.

Dona Adélia era nossa vizinha de primeiro andar lá no Santa Mônica, e a única com televisão num raio de quinhentos metros de casa. Todas as noites eu e minha avó Maria assistíamos, na condição de televizinhos gentilmente convidados, às novelas da Tupi ou da Excelsior.

Acontece que além da portentosa Philco de 24 polegadas na sala, Dona Adélia tinha também a mais cobiçada arandela do prédio, bem acima da porta de entrada. Era uma casinha chinesa, toda de folhas de cobre, que ela polia pacientemente com Brasso uma vez por semana. As peças eram ligadas por soldas de estanho, e a lâmpada protegida por belíssimos cristais bisotados. Um luxo.

Minha avó fizera o favor de mostrar à vizinha seu molho de chaves novinhas e reluzentes, ao mesmo tempo em que exaltara com muito orgulho a genialidade do neto. É claro que a idéia de transformar a arandela em uma peça única, coruscante, e que ainda dispensasse o fatigante polimento semanal acorreu imediatamente à cachola da mulher.

Consultado, expliquei que a fórmula ainda não estava completa, que o brilho esmaeceria fatalmente após alguns dias, que esperasse só mais um pouquinho. Debalde. Dona Adélia argumentou que não tinha importância. Queria ver como ficava, mesmo que fosse só por um pouco. Depois — afirmou enfática – compraria o primeiro frasco do produto definitivo com muito gosto.

Dito e feito. Desmontei da parede a obra prima e fiz o serviço.

De volta ao lugar não era mais uma arandela. Era uma jóia refletindo tudo ao redor. Quando acesa a lâmpada, os raios de luz batiam e rebatiam sobre as intrincadas superfícies num estonteante efeito caleidoscópico. À noite luminosas figuras geométricas adornavam as paredes do saguão, a porta e até o teto.

Uma beleza, uma beleza.

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Três horas da manhã na São Vicente de 1962 era um momento de muito silêncio. Foi por isso que todo mundo acordou com o barulho. E depois a coisa toda não despencou de uma só vez: o que sobrara de ácido nítrico na poção mágica corroera o estanho bem devagarinho. O colapso deu-se então de forma agônica, uma peça de cada vez. As de cristal foram, naturalmente, as mais ruidosas no processo espatifatório.

Apesar de estarem todos de pijama e bem acordados no corredor, Dona Adélia deixou para varrer tudo no dia seguinte para não fazer ainda mais barulho.

E eu limitei, por um bom tempo, a televisão aos fins de semana. Na casa do Carlão mesmo.

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Uma notinha:

É claro que muito depois tomei consciência do perigo do contato de um composto de mercúrio com a pele. Em doses elevadas pode causar danos neurológicos irreversíveis. Mas até onde sei ninguém apresentou sintomas depois daquilo.

O Carlão continua perseguindo o seu projeto de moto-perpétuo.

E eu… Bem. Uma reputação como a minha não se constrói sem riscos…