Último suspiro

Carlos Roberto colocou-a no chão, sentada entre suas pernas. Sorveu um gole mais do Jack Daniels e desligou a TV. O jogo estava no fim. O Corinthians perdera outra vez. Débora — esse era o nome dela — não se mexia. Pálida e inerte. Carlos Roberto brincava com os caracóis dos seus cabelos, num tique nervoso que aos poucos foi se acalmando

Sentado ali no escuro, os ruídos da rua definhando com o passar das horas, cavoucava suas fantasias em busca de novas e excitantes possibilidades. Escorregou para o tapete e puxou-a para si. Abraçou Débora e ela, aos poucos, foi roubando seu calor até que o corpo tornou-se morno e macio ao toque, adquirindo vida uma vez mais.

Aquilo o excitava. Aquecê-las era como transferir-lhes vida, prepará-las para o prazer, dar-lhes brilho aos olhos, umidade às bocas abertas. Sua mãe, como sempre e desde criança, tentava imiscuir-se nessas horas com a censura, a negação, o horror da intromissão, o castigo. Mas Carlos Roberto sabia como escandalizar o fantasma, fazê-lo persignar-se e correr atravessando paredes. Ainda o desgostava a memória da empregadinha nua, açoitada pela megera. Depois se comprazia pensando que a velhota — agora morta — por certo morreria mil vezes ao saber que ele descobrira como possuí-las, todas e sempre, sem lamúrias nem gemidos. Em silêncio. Sem medo.

Seu único temor agora devia-se à pieguice, ao romantismo de sua alma, à fraqueza do seu coração. Pois que nunca conseguira descarta-las por completo, mesmo depois de usadas, amadas vezes sem conta, até que seus corpos perdessem a higidez, o viço, o alento. Morria de vergonha e medo de que um amigo, um vagabundo ou um ladrão rompesse o lacre do armário da garagem, onde as guardava. Sônia, Virgínia, Sandra, só para lembras as três últimas. Porque definhavam tão depressa?

Tomando Débora nos braços, levou-a para a cama. Tirou com cuidado seus sapatos, de modo a não ferir-lhe a frágil pele. Depois a despiu e a ajeitou cuidadosamente sob o lençol de cetim. Ligou o aquecedor na esperança de que ela não perdesse novamente o seu calor e se torna-se gélida. Só então foi banhar-se, purificar seu próprio corpo na expectativa do ritual.

Depois possuiu Débora com redobrada ternura, pressentindo a separação.

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O despertador entrou em seu sonho na forma do silvo de uma locomotiva que se aproximava, enquanto Virgínia, amarrada aos trilhos, se debatia como num orgasmo macabro.

Carlos Roberto apertou o botão e amaldiçoou a segunda-feira. Súbito, a lembrança da noite anterior invadiu seu peito, percorreu seu abdômen e foi alojar-se entre suas pernas como uma garra. Os seus clientes que se danassem. Ele a desejava de novo.

Rolou e estendeu o braço. O corpo de Débora não estava mais lá. Levantou de um repelão o lençol e contemplou o horror que se repetia. Frustrado, revirou-a cuidadosamente. Sabia onde procurar. Nas nádegas, logo abaixo da válvula. O esparadrapo se soltara, só uma pontinha, mas o bastante para que Débora murchasse. Exalara por ele o alento que ele mesmo insuflara naquela tarde com tanto amor.

Dobrou-a com carinho, os olhos molhados, pela última vez. Hora de comprar outra. Malditos chineses.

Antes de sair para o trabalho, depois de escondê-la junto às outras, uma excitação percorreu-lhe a espinha. Magali. Magali era um bom nome, e lembrava a professorinha de geografia. A próxima seria Magali. Acelerou cantarolando a caminho do sex shop.