Triste papel

— Tô fora!

— Ôôôôôôô quêêêêêêê??

— Tô fora, Belinha! — E saiu batendo a porta.

Belinha não se deu por achada. Agarrou o papel de cima da mesa e correu atrás dele.

— Volta aqui! Voooooooltaaaaaquiii seu cachorro!

Reginaldo parou de repente, quase atropelado pelo moleque de bicicleta. Dona Candinha parou de estender a roupa no varal e ficou espiando entre dois lençóis.

Belinha arfava. A indignação em pessoa, olhos lacrimejantes e a boca trêmula.

— Quem você pensa que eu sou? Olha aqui — quase esfregou o papel na cara dele — tô grávida! E o filho é teu! Teu, seu cretino!

E pôs-se a chorar, o papel entre o rosto e as mãos, a tinta escorrendo. Reginaldo olhou para os lados. Um escândalo, isso é que era. Comera sim. E prometera mundos e fundos, jurara eterno amor, o diabo. Quem não juraria? Mas fora discreto e cavalheiro. Tirando o Cridinho – velho amigo — e o padre Paulo, não contara a ninguém. Dona Eulália também sabia, mas isso porque mãe adivinha essas coisas, não por sua boca.

— Belinha, fugir com você eu fujo. Casar eu caso. Te sustento. Mas filho? E você ainda quer que EU conte pro teu pai? Nem pensar!

Belinha agora soluçava, o rosto a máscara da dor. As mãos (e o papel) esfregavam a camisa branca do rapaz deixando um rastro azul. As pernas dobraram-se num ajoelhar dorido, num pedido de clemência.

— Aaaaaiiii Reginaldo… — a moça babava, lágrimas e saliva salgando-lhe a boca — Aaaaaiiiii… não faz isso comigo, Reginaldo…

Dona Candinha já não olhava. Só escutava, hirta, chocada, os olhos molhando-se com os de Belinha.

— E quer saber, Belinha? Quer saber? Isso é golpe! É chantagem! Só porque eu disse na festa da igreja que não ia casar. Só prometi pensar. Mas nãããoooo… você tinha que achar um jeito não é?

Reginaldo respirou fundo e curvou -se para olhar bem dentro da cara dela:

— E eu perguntava, não perguntava? Sempre perguntei! Sempre! Posso? — arremedou a si mesmo — Posso meu bem? Não tem perigo hoje meu bem? E você me apertava e dizia: Pode! Pode! Com a cara mais santa do mundo. Não foi Belinha? NÃO FOI BELINHA?

— Aaaaaiiiiii me acuda meu Bom Jesus! Aaaaaiiiiiii que sou desgraçada!

Por um momento Reginaldo pensou em fingir ceder, levá-la para dentro e acalmá-la. Logo a sineta do grupo escolar tocaria e a rua ficaria cheia de gente, sua intimidade exposta, uma vergonha. E havia parteiras em Morro Grande, ele sabia, que podiam…

Não. Não e não. Belinha era gostosa, um monumento. A moça mais desejada da cidade. E também a mais recatada — filha de Maria! Muito lhe custara a conquista. Flores, bilhetinhos cuidadosamente estudados, a libido que ele sabia estar lá despertada passo a passo, com maestria. Belinha era sua obra prima, a conquista suprema, a trepada definitiva. E agora a criatura voltava-se contra o criador. Sairia da cidade. Correria alistar-se na capital e pronto.

Belinha remenda o amor-próprio rasgado pela canalhice. Sacode da alma a calcinante dor, o opróbrio sem nome, o desespero a cavoucar-lhe os intestinos. Ergue-se. Recompõe-se. Supera.

Assoma-lhe à garganta a reprimida torrente da finada esperança. Foge-lhe o amor, que guardará no recôndito da alma espezinhada, e dedicará um dia a uma criança. Mas não dele. Ah! Que Deus é grande e um filho não há de parir suas entranhas se fruto de um covarde. E a tanto cresce em sua boca o desprezo que este explode, em cusparada, no rosto de Reginaldo.

O moço, cego, devolve-lhe em tapa o vitupério. Espalma na face molhada a mão, que marca não deixará, pois que desliza na lágrima e na gosma da humilhação.

Belinha foge. Estoura casa a dentro, sobe as escadas, atira-se ao chão do quarto.

Amainada a raiva, minorado o golpe da desilusão sentida só pelos que urdem e conspiram em vão, Belinha arranca a roupa e abre o chuveiro. Apanha no bolso do vestidinho de chita o papel. Tanto trabalho! A folha roubada ao Doutor Paranhos, a Parker do pai às escondidas, a caligrafia feita em garrancho com a mão esquerda mas perfidamente legível.

Belinha o pica, atira à privada a prova e, finalmente, deixa-se berrar:

— Que meeerdaaaaaaaaaa!!!!

Dona Candinha, coitada, lá no quintal, faz o sinal da cruz e pendura uma cueca.