Tino, o desaparecido

Um veleiro da classe Sharpie

Há muitas pessoas desaparecidas ao longo da minha vida, além do Moura. A maioria faz enorme favor em continuar assim. Outras, eu gostaria de rever, conversar com elas, retomar a amizade há muito vivida. O Tino é uma delas.

Tino era meu chefe, e gaúcho de boa tradição. Foi dele que ouvi, ao esmerilhar o carro de um amigo, a frase: “Cavalo alheio, espora e reio!”, agauchando o relho.

Com ele aprendi a velejar. Reformamos um velho Sharpie, barco marinheiro e de bom desenho germânico. Peguei o gosto — e a prática — pela marcenaria reformando o bravo veleirinho, aumentando o seu pontal para que pudesse enfrentar um mar mais picado. Por muitos domingos nos escondemos na praia da Pouca Farinha, do lado de lá do canal de Santos, cortando, furando, cavilhando, esculpindo a madeira. E depois vedando, selando, lixando e pintando aquele casco até que ficasse pronto para o sal.

A cada vez, Tino levava sempre uma boa costela, escolhida como só ele sabia, e depois assada quase de pé, espetada sobre um braseiro na areia da praia. “A graxa sempre para cima”, ensinava ele, “e não mexas na carne. Tu só vais dar um tombo nela, bem no fim, para a graxinha estalar. E come primeiro o matambre!” Tomei gosto também pelo chimarrão, refresco mesmo no verão.

É estranho, mas não me lembro do nome que demos ao veleiro. Nas minhas lembranças, ele é simplesmente o Sharpie. Quando finalmente terminamos, eu já sabia tudo o que era preciso saber para um marinheiro de primeira viagem. Conhecia cada pano (“vela é para defunto”) e sabia o nome de cada cabo (“quem tem corda é relógio e pescoço de enforcado”). Eu nomeava cada coisa — gaiúta, buja, escota, retranca, boca, pontal — com o orgulho de quem sabe coisas que ninguém mais sabe. Ainda agorinha eu refiz alguns nós de marinheiro em um barbante. Meu lais de guia ainda é perfeito.

Com a prática, virei um respeitável proeiro. Manobrava os cabos de pé, a cintura acompanhando cada movimento do barco como me ensinara o Tino, o braço passado no estai de proa. Quando o vento era bom, abusávamos da orça — aquela andadura na qual o barco vai contra o vento, assustadoramente inclinado — com os pés presos no arreio, a bunda na borda e o corpo todo para trás, fazendo o contrapeso. Fazendo bordo, como se diz na linguagem apropriada. Nessas horas a gente gargalhava e berrava nome feio como dois moleques.

Certa vez, paramos o barco na altura da última bóia do canal, para assistir a uma regata do Iate Clube de Santos. Ficamos lá um tempão, vendo aqueles barcões competindo, montando bóia bem pertinho da gente. De repente, um dos veleiros de oceano passa direto pela raia e aproa reto para o Sharpie. Sem entender direito o que estava acontecendo, vimos o comandante de pé na proa, enquanto o barco saía do vento, panejava e perdia impulso. O homem deixara a competição para vir em nosso socorro. Em socorro de dois prováveis idiotas que não sabiam que um casquinho como aquele não era para mar aberto, e agora estavam numa sinuca, sem saber como voltar.

Quando descobriu o que estávamos fazendo ali, sobrevivemos graças à agilidade do Sharpie e à habilidade de sua tripulação.

Um dia, Tino volta para Porto Alegre levando o Sharpie com ele. Ainda velejamos um par de vezes na Lagoa dos Patos. Foi lá que enfrentamos a mais divertida tempestade de nossas vidas. Não éramos moleques?

Tino foi o único comunista inteligente que conheci na vida. E ele já era ambientalista nos anos 70. Além de velejar e trabalhar juntos, projetávamos e construíamos geradores eólicos, por puro gosto. Calculávamos coletores solares e novos ciclos de Carnot. Planejávamos, um dia, ter um negócio qualquer envolvendo energias alternativas.

Perdi contato com o Tino depois que nossas vidas mudaram simultaneamente. Eu vindo para São Paulo e ele separando-se da Lú, sua terceira ou quarta esposa, não lembro bem.

Se alguém souber do paradeiro de Ebrantino Martins Correa, por favor me avise.