Seleção musical

— 46. É esse aí.

Ele vira o volante e entra na garagem. Assim que chega ao fundo, a porta automática começa a fechar silenciosamente atrás do carro.

— Marquinhos, era o Lázaro.

Ele desliga o motor e vira-se para ela, a mão fazendo bobagens nas coxas de Belinha. Ela tira com um peteleco.

— Pára! Eu estou falando com você.

— Seu marido? Ele está trabalhando hoje, você mesma disse!

— Nós também estamos no escritório, não estamos? Liga pra lá e pergunta pelo Doutor Marcos, pergunta!

Ele percebe a delicadeza do momento. Sua tarde estava ameaçada. Depois de tanta bolinação na sala do almoxarifado e uma quase consumação do ato no banheiro da diretoria, conseguira arrastar Belinha para um motel. Ela ainda exigira que fosse bem longe do escritório. Um motel de estrada. Aquele não prometia muito no quesito conforto, mas atendia às exigências da presa.

— Meu amor — sua voz é grave e aveludada como a de um pároco a converter a cafetina da vila — você só viu um carro igual ao dele. Um Gol vermelho. Existem milhões no mundo. E assim mesmo de relance…

— Mas tinha uma figa igualzinha pendurada no espelhinho.

— Você viu a placa, meu bem?

— Não. A placa eu não vi.

— Viu o motorista?

— Não, né? Com aquele vidrão escuro que ele mandou botar… Só deu pra ver a figa quando a gente passou por ele lá no farol.

— Viu? Você não tem certeza. E depois meu bem, mesmo que fosse seu marido, ele não estava seguindo a gente, pode acreditar. E nem viu você. E o meu carro também tem vidros bem escuros, certo?

Belinha convence-se. Ninguém sabia onde eles estavam, e ela mesma só tinha cedido à insistência de Marquinhos há menos de uma hora. Paranóia tem limite. E depois, estava curiosa para saber do que aquele pedaço de homem era capaz na cama.

-oOo-

Belinha sai do banheiro enrolada na toalha. Deita-se. O moço apaga o cigarro e fica olhando aquele mulherão. Ali de bruços, a toalha mal cobrindo as volumosas nádegas, ainda inconspurcadas pelo olhar lúgubre de Marquinhos. Sua mão retoma o que havia começado no carro.

O ar condicionado faz um barulho esquisito e as paredes não eram lá muito grossas. Podia-se ouvir a música vinda do quarto ao lado. Blue Moon. Muito romântico. Os dedos de Marquinhos movem-se ao ritmo da orquestra. No último acorde, prolongado e suave, toda a mão acompanha o movimento em direção ao que realmente interessa.

A melodia transforma-se num rock antigo e frenético. Marquinhos abandona a sutileza e inclina-se, a boca ávida pelo encontro com aquelas carnes. Em vez disso, são as carnes que vão ao encontro da cara, o cóccix batendo com força no ossinho do nariz.

— Aaaaai meu Deus!

— Que que é isso, Belinha? Pergunta Marquinhos ainda zonzo da pancada.

— Ai Jesus. É o Lázaro.

— Belinha, você está…

— Ssssssssss!! Fala baixo! Não grita o meu nome desse jeito. Ele pode ouvir!

Marquinhos começa a duvidar da escolha. Com tanta mulher gostosa no escritório, tinha logo que ficar com tesão por uma louca.

Ele cochicha:

— Que Lázaro, Belinha. Que Lázaro? Onde, Belinha?

Ela senta na cama, as pernas cruzadas. Ajeita a toalha novamente no busto.

— Aí do lado — diz apontando a parede.

— Você está me dizendo que o seu marido está aí, no quarto do lado?

Os olhos delas se arregalam.

— Quem mais? Quem mais gravaria um CD com I Wanna Hold Your Hand logo depois de Blue Moon?

— Belinha, escuta, isso aí não é um CD. É o rádio. E o sujeito resolveu botar uma música depois da outra, e daí? Blue Moon, e depois…

Para. Era mesmo uma combinação desgraçada de ruim. Mas não deixava de ser uma coincidência. Tinha que ser uma coincidência.

— Olha, então teu marido tem um CD igualzinho, e daí?. Qual é a próxima?

— Dona Esponja.

— Dona… esponja?

— É. Zeca Pagodinho.

Não deu pra segurar. Marquinhos explode numa gargalhada.

— Zeca Pagodinho? Depois dos Beatles?

— É.

— OK. Vamos esperar. Se não for a dona… como é mesmo?

—… esponja…

— É, esponja, você relaxa está bem?

Ele posta-se atrás dela, enlaçando-a. A mão percorre de mansinho a curva do seio, por cima da grossa toalha mesmo. A essa altura do jogo qualquer coisa é lucro.

Esperam. O rock morre. Silêncio. Chega a próxima música. Belinha geme baixinho. Marquinhos ferve.

Dona esponja esculacha / bebe mais de cinco caixas / sem usar o toalete…

O corpo de Belinha retesa-se. Ela se levanta. Posta-se ao pé da cama. Seu corpo treme. Seus olhos de amedrontados tornam-se furiosos. A toalha cai. Os olhos de Marquinhos fixam-se naquele espetáculo de curvas, de volumes, de bicos e de pelos. Mas o seu colega de armas já abandonara o campo de batalha. Entregou-se e foi repousar a cabecinha no algodão do lençol.

— Filho de uma puta. Filho de uma puta! Ele me ligou dizendo que ia trabalhar. Cliente novo e tudo. Desgraçado!

Corre para o criado mudo e vasculha a bolsa. Pega o celular.

— O que você vai fazer, meu amor?

— Vou ligar pro cafajeste. Estragar a festa.

Disca. Um toque… dois… alguém abaixa a música… três toques…

— Oi meu bem!

— La-lázaro?

— Eu, meu bem! Aconteceu alguma coisa?

Belinha tenta controlar a voz. Tinha que ser firme sem espantar a caça. O bote viria depois.

— Lázaro, onde você está?

O marido dá uma risadinha.

— Você não vai acreditar, docinho. — faz uma pausa para causar efeito — eu estou num motel…

— Como?

— Calma, docinho. Não é nada disso — ainda ri — você lembra que eu te falei que o Rogério tinha me arrumado um cliente novo? Então! É um motel. Na Raposo Tavares. Sabe quantos? Sessenta e nove aparelhos! É ar condicionado que não acaba mais. Contrato firme!

— Pu-puxa.. que bom… então tá.

— Mas pra quê que você ligou?

Resposta rápida e indolor:

— Tava com saudade, benzinho.

Ela ouve um silvo e um estalar de língua.

— Escuta, esse negócio de cama redonda, espelho e sex-shop no criado-mudo deixa a gente meio sugestionado. Você vai ficar até mais tarde hoje?

— Hoje? Não, não. Vou cedo. E você, demora muito?

— Que nada. Falta só mais um, que está fazendo um barulhão. É bem aqui do lado. Só estou esperando os caras acabarem de trepar, conserto ele e me mando.

— Tá bom então. Bejo.

— Bejo.

-oOo-

Ouviu o carro saindo. Olhou pela fresta da cortina. Um carrão importado. Cara de sorte. O sujeito arrancou cantando os pneus. Ou tinha outro compromisso ou a dona tinha sido uma decepção. Vai saber.

Lázaro largou a cortina e olhou de novo para o alto da escadinha. A camareira estava quase acabando de limpar o cantinho da parede antes que ele pusesse de volta a tampa do ar condicionado. Foi até o CD e aumentou de novo o volume. Johnny Rivers.

Do you wanna dance/under the moonlight…

A camareirinha mexe os quadris acompanhando a melodia. Lázaro aproxima-se. A moça olha para baixo, para o seu rosto, e sorri um convite. Ele tem aquela bundinha bem perto. As mãos tocam joelhos e sobem coxas, quadril acima. Encontram a alça da calcinha. Puxam bem devagar. Perfume, que perfume…

Lázaro fecha os olhos e, antes de mergulhar o rosto no paraíso murmura:

— Perdão, Belinha. Perdão…