Respirando partículas

Pensei comentar na época, mas o blog estava de mudança e passou. Mas agora, com a carta do Professor Alberto Santoro à Veja desta semana, vou à carga.

Os fatos:

Simon Schwartzman, luminar das umanas (o homem é sociólogo), declarou em entrevista à Veja que o dinheiro para pesquisas no Brasil é muito mal direcionado (grande novidade). E deu como exemplo a pesquisa sobre física de partículas, segundo ele coisa cara e só adequada a países ricos e desenvolvidos. Não leva a nada.

O Professor Santoro, em resposta polida, relacionou a contribuição dos brasileiros nessa área, defendendo a pesquisa.

Agora a minha colher:

Repetirei à exaustão que o Brasil erra ao promover esse imenso desequilíbrio entre as ciências sociais e as ciências naturais. O resultado é que pessoas supostamente cultas acabam por dizer sandices por desconhecimento do que seja, por exemplo, o estudo da física das partículas.

Provavelmente o leigo Simon Schwartzman esteja se referindo aos aceleradores, máquinas de custo tão estratosférico que só podem ser construídas através da colaboração entre diversos países. Essas máquinas são projetadas e construídas para confirmar teorias através da replicação de fenômenos, nada mais. Para confirmar o que já se suspeita antes de dar novos passos. O grosso da pesquisa é feita por físicos teóricos e por cientistas experimentais em laboratórios bem mais modestos.

Mas descartemos o custo, e vamos aos benefícios. O que ganha o Brasil ao incentivar esse tipo de pesquisa? Depende. Na falta de engenheiros e empresas capacitadas para absorver esse conhecimento, muito pouco. Nas mãos de técnicos e cientistas competentes resulta – por exemplo – em equipamentos médicos fantásticos. A imagem que ilustra este texto era impossível há bem pouco tempo, mesmo através da ressonância magnética convencional (esquerda). Uma nova tecnologia utilizando-se de gases nobres permite-nos ver os pulmões com muita clareza (direita). Pura física de partículas.

Nenhum equipamento de comunicação, computação ou medicina – para citar alguns campos – seria possível sem o conhecimento obtido pelos físicos que estudam partículas. Países desenvolvidos e muitos em desenvolvimento não desprezam esse conhecimento. Os brasileiros permitem que um sociólogo palpiteiro o despreze, sem reclamar muito.

Mas vamos mais longe. Assim como o custo, vamos também jogar fora os benefícios práticos. O que sobra?

Sobra o conhecimento, o que não é pouco. Ou será que contribuir para explicar o nosso mundo físico, alargar a visão do universo como ajudou a fazer César Lattes tem menos valor que o trabalho de um sociólogo, um historiador, um antropólogo?

Nenhum país tem futuro sem acumular conhecimento em todas as áreas, sem exceções. O preço a pagar é a mediocridade, a dependência, a desesperança.