Reconhecido afinal

St. Michel outra vez. Como vêem, sou um sujeito de hábitos arraigados. Mas desta vez foi diferente.

O rapaz me atende trazendo o menu. Logo mais descobriria chamar-se Alessandro. Depois do pedido ele me olha e afirma:

— Eu conheço o senhor.

Acho difícil. Não era o garçom que me havia atendido no dia anterior.

— Bem, eu estive aqui ontem…

— Não – fez ele passando a mão sobre o rosto – sua fisionomia é conhecida. Eu o vi em algum lugar. O senhor não é escritor?

Pronto. Estava explicado. Igual na estação de Stuttgart uma vez, onde quase passei por Paulo Coelho (o Edson diz que com aquele casaco eu fico direitinho o Paulo Coelho. Tem até uma foto para provar).

Tratei de contar logo a verdade.

— Sou, mas conhecido só no Brasil.

O rapaz fez um ahnn!

— E o seu nome é?

Pronto. Foi bom enquanto durou. Digo meu nome. Aquele mesmo que Seu Ernesto e Dona Eliza me deram.

O rapaz ficou mais respeitoso. Salamaleques.

— É um prazer ter o senhor aqui, viu? O que precisar é só pedir. Seu prato vem já já.

Respirei fundo e voltei ao meu livro. Era só o que eu queria: terminar o meu Predadores. Esse sim escrito por um escritor de verdade.

Nem bem virara uma página e o moço volta, dessa vez acompanhado de um sujeito engravatado (acho que era uma espécie de gerente do lugar. Depois soube chamar-se Gabriel), uma moça muito bonita e outro garçom curioso.

— Desculpe, mas minha amiga aqui fez questão de falar com o senhor.

A menina parecia excitada (no bom sentido) por estar diante da celebridade.

— Eu faço doutorado em literatura latinoamericana na Sorbonne. Por isso conheço o senhor de nome.

Caraca!, como diria a Lú.

A moça falava espanhol. Me perguntou se eu estava em Paris para alguma conferência. Disse a verdade, que não sou mentiroso, passara por aqui apenas para resolver uns negócios.

O gerente avisou que o vinho era por conta da casa e retiraram-se. A negadinha nas mesas em volta já olhava de rabo de olho.

No fim ainda recebi uma generosa dose de licor junto com o café. Também “pela casa”.

Paga a conta, gorjeta pequenininha, que escritor que se preze é um duro, o gerente e o garçom pedem um autógrafo. Dou, com dedicatória e tudo, incluindo um incentivo ao rapaz que disse já ter escrito uma ou outra coisinha. Em português, claro. Um dia, quem sabe, o mundo é redondo e os papeluchos podem valer uma grana. Bué de grana, como se diz em Angola.

Agora confesso. Deve ser uma delícia ser reconhecido em Paris. Quando se é um escritor famoso e citado até na Sorbonne, claro. Do jeito que foi, acreditem: é muito esquisito.