Protesto apaixonado

O telefone toca. Claudete olha o número no mostrador. Começa com 21. Repete mentalmente a frase padrão de calibração do neo-sotaque carioca (a féisssta começa meisssmo àis déizz), e atende:
— Lóbi no Grito, bom dia! Em que posso servi-la?
— Eu queria encomendar um protesto.
O sotaque era paulista. Mas precisamente de Marília. Claudete tapa o bocal e diz em voz alta: “the transport is rolling down the road”. É a maneira mais rápida de ajustar o córtex cerebral ao falar de um caipira.
— Pois não. Com quem falo?
— Lúcia.
— Pois não dona Lúcia. Que tipo de protesto a senhora tem em mente?
— Eu queria mandar um recado pro ministro Gilberto Gil. Ele deixou minha cidade fora do Mais Cultura.
Claudete digita habilmente com a mão direita. Na tela, a ficha do ministro e seu ministério. Seus olhos percorrem o texto até encontrar o tal programa Mais Cultura. Quatro bi e setecentos.
— E sua cidade é…?
— Marília. Em São Paulo. Eu moro no Rio, mas sou de Marília.
— Muito bem. Então a senhora está indignada porque o Gilberto Gil não reservou uma verba para a sua cidade num programa do ministério chamado Mais Cultura…
— Indignada uma ova! Eu tô emputecida! Se tem uma cidade que precisa de mais cultura é Marília! Entra aí na internet e olha. A coisa mais badalada da cidade é o campeonato de pingue-pongue da ADM.
— Muito bem, dona Lúcia. Eu posso lhe oferecer um pacote de cinco dias úteis…
E Claudete explica tudo direitinho. Combinam o texto e o tom. Pagamento por boleto bancário, seguro do agente protestante incluído.
Antes de desligar, a cliente faz mais um pedido.
— Será que no fim vocês podem gritar: Giiil eu aaaaaamo você?


Adenilson comia um sanduíche enquanto folheava o último relatório do contador. Cearense lá do fundão, viera para Brasília no colo da mãe para morar com o pai candango, quando Brasília ainda era a Capital da Esperança. Homem de bons princípios, largara o gabinete de um deputado da terrinha onde atendia lobistas durante o dia e lutava para dormir à noite. Empreendedor, viu logo uma oportunidade no mundo do lobby, mas do lado do povão. Fundou a Lobi no Grito Consultoria e Serviços Ltda. O começo foi difícil, mas quando o torniquete chegou à classe média a empresa decolou. Adenilson pode então praticar uma tabela de preços decente e o resultado refletia-se nos números à sua frente.
— Entra!
Claudete atravessou a sala e colocou o pedido na mesa do chefe.
— Hummm… Cultura, é? O Gil? Raridade. O cara não usa nem cartão corporativo…
— Trabalho tranqüilo. Dei desconto pra ganhar a cliente.
A moça falava com o mais puro sotaque nordestino.
— Quer parar de me imitar?
— Desculpe. É o hábito.
— Como vão as vendas?
— Vamos fechar fevereiro com 24% acima da meta. E março vai bombar. Vamos ter que contratar mais gente.
— Os cartões?
— É. O escândalo dos cartões. É a bola da vez, e agora com a CPI nós estamos garantidos por pelo menos mais seis meses. A maré vai emendar com as eleições.
Adenilson pega de novo o pedido da moça de Marília.
— Quem você vai mandar neste aqui? A Cajazeira?
— Não dá. Ela ainda está escondida lá no sítio depois daquele “pega ladrão!” no gabinete do senador.
— O Beto Trombone então.
— O Beto anda ocupado com aquele caso do mutuário gaúcho na sede da Caixa Econômica. Está há quinze dias segurando o cartaz e tomando chimarrão na porta do banco. O guarda já quebrou quatro garrafas térmicas na cabeça dele. O cliente renovou por mais quinze.
— O Betão é duro na queda. Ele agüenta.
— E depois não fica bem o Beto jurando amor ao ministro no meio da rua.
— Bom, cuida disso você. Vou sair para almoçar com o pessoal da Argentina. Eles querem discutir nossa experiência com a Marta Suplicy pra vaiar a nova presidente.
— A gente se vê de noite?
— Seu apartamento ou o meu?
— Você me deve aquele escondidinho de carne seca, lembra?
Adenilson ainda sorria quando Claudete mandou um beijinho da porta.


Os dois estavam enroscados, repartindo um único cigarro como de costume. Da sala, onde a mesa ainda estava posta e o resto do escondidinho já esfriara na travessa, chega a voz melancólica de Roberto Carlos cantando uma velha canção romântica.
Adenilson e Claudete eram mais que amantes. Eram cúmplices no crime de amar, no delito de compartilhar, na contravenção de entender-se calados.
— Eu queria falar uma coisa com você.
— Diga meu anjo.
— Quero casar com você. De papel passado.
— Querido, eu não posso. Já expliquei.
Adenilson apagou o cigarro e pôs-se de lado, encarando-a.
— Olha, mês que vem a gente vai sacramentar a sociedade. Os negócios vão indo bem. Morando junto a gente economiza. E aí não vai ser difícil pagar o tratamento da tia Deolinda. Quem sabe até mandar ela pra fazer aquela operação lá na Europa.

Claudete perdera os pais muito cedo, em um desastre de carro. Fora criada por tia Deolinda, a única mãe que de fato conhecera. Seu pai fora major do Exército.
Acontece que antigamente, antes dos civis retomarem o poder e mudarem quase tudo, a lei rezava que a viúva de um militar tinha direito à pensão vitalícia e que, depois de morta, a dita renda passava a ser repartida entre as filhas mulheres. Com uma condição: a moça perdia o direito ao benefício depois do casamento. Além disso o pecúlio era calculado com base no soldo de uma patente acima da do falecido. E foi assim que Claudete viu-se, a vida toda, dona de uma gorda mesada, como se viúva fosse de um coronel.
Nos últimos anos, contudo, o dinheiro desaparecia mês após mês em contas de médicos, remédios e hospitais para a tia. A velha padecia de um mal tão raro quanto caro. Mas que bem tratado não comprometia a longevidade da vítima. O que consolava Claudete, mas aos olhos de um observador cínico era uma tremenda desvantagem.

— Meu bem, não é justo. Tia Deolinda é meu problema, meu carma.
— Ela é como minha tia também, meu amor. A gente se adora, você sabe. Me trata como um filho.
— Ainda assim. Já falamos sobre isso. Eu já teria desistido desse dinheiro com você ou sem você. É uma mamata. Só continuo pegando porquê sem ele titia já teria morrido.
Adenilson tentou de outro jeito.
— Escuta, tem um montão de projetos pra acabar com essa mamata, como você diz. Mais dia menos dia um deles vai passar. Então pra quê esperar? A gente casa e pronto. Adianta o expediente.
— Não sei. Vou pensar.
— Você não gosta da idéia? Quero dizer, de casar comigo?
Claudete acariciou o rosto de Adenilson, os olhos molinhos, molinhos.
— Vamos estar juntos até o mundo acabar. E vamos casar um dia. Eu quero muito. Mas acho que não antes de tia Deolinda morrer em paz.
Adenilson suspirou, por hora conformado. Beijou-a emocionado e tocou-a como ela queria. Amaram-se outra vez antes de adormecer.


O sol ia alto. Claudete já saíra. Era sua vez de abrir o escritório.
Adenilson, já vestido e bebericando um café na mesa da cozinha, matutava.
Precisava ter Claudete para sempre bem perto dele, ir para a casa com ela, falar de filhos, fazer planos que só casais casados fazem.
Mas aqueles malditos projetos não iam sair da gaveta sozinhos para acabar com a malfadada pensão. Merda de lei. Alguém tinha que berrar e exigir que acabassem com aquilo. Um anacronismo vergonhoso. Um esbulho do dinheiro público. Mas quem se importava? E tia Deolinda — Deus que me perdoe — não ia morrer tão cedo. Era preciso apressar as coisas, fazer acontecer. Desatar o nó.
E para isso Adenilson arquitetara um plano. Um plano diabólico.
Enrolou o pano de prato no bocal do telefone e fez a ligação, gaguejando para disfarçar a voz.
— Alô! É da ló-ló-lóbinogrito? Eu queria encomendar um pro-protesto. Contra os mi-milico…
— Pois não, meu senhor. Com quem eu falo?
O sotaque da moça era bem lá de Quixeramobim.

Este conto me assaltou ao visitar o Quem me entenderá? da Samara, virginiana (logo, brilhante), brasiliense e recém-chegada à aldeia pela via do Arguta.

Ilustração: Lovers, de Tony Baker
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