Presunção de culpa

A polícia estava dando declarações sensatas, cautelosas e apropriadas. E ainda está. Mas a promotoria pública (quem mais?) tinha que enfiar o pé na jaca. Ou no palco.

Francisco Cembranelli está há menos de vinte e quatro horas no caso e claramente já formou seu juízo a respeito da culpabilidade dos dois. Justificou a prisão do casal como uma medida para “garantir a tranqüilidade das investigações”.

O pai e a madrasta podem ter culpa no caso? Podem. Mas o próprio promotor não tem elementos para afirmar isso. Em sua entrevista coletiva o homem balançou entre não dizer nada (é segredo de justiça) e atirar a lógica pela janela.

Se os dois forem inocentes a tragédia terá destruído, além da vida de uma criança, duas reputações e duas vidas mais.

Disse Francisco Cembranelli, um gigante da investigação criminal, que a versão do casal é “fantasiosa”. Na entrevista, nota-se que as inconsistências apontadas por ele decorrem da comparação entre o depoimento do pai e frases ouvidas dele no momento do crime, por vizinhos. Ele bateu repetidamente na tecla de que o homem ao descer do apartamento (o corpo da menina já no jardim), dizia ter sido o seu apartamento arrombado e que havia um ladrão em casa. E que não repetiu isso em seu depoimento à polícia depois.

Ora bolas. Se eu fosse inocente formaria em minha cabeça, no momento da tragédia, exatamente a mesma imagem. Pela simples razão de que é a mais lógica sob as circustâncias. E qualquer declaração posterior não faria de mim um assassino.

Há grandes chances de que a verdade apareça com as investigações. Não por obra de um promotor, mas através do trabalho criterioso, inteligente e científico da polícia.

O resto é só a busca da notoriedade por um funcionário público que, ao nascer sob a lâmpada enorme da sala de parto, passou a acreditar que a vida é só um grande holofote.