Perguntas e respostas

Alguém – o Jô soares se não me engano – tinha um personagem que cada vez que recebia um desaforo mirava o interlocutor aparvalhadamente e balbuciava:

— Ah, ééé? Ah, éééééé?

Três horas depois ele buscava novamente o ofensor e lhe aplicava uma resposta absolutamente à altura e que variava conforme o contexto. Mas ou menos assim:

— Mas naquele dia a sua mãe não estava de calcinha amarela, estava?

Eu gostava muito do sujeito. Simpatizava com ele. Me identificava com ele. Esse é um problema comum às mentes exatas (por “mente exata” entenda-se a cachola de indivíduos acostumados a utilizar a lógica em seu raciocínio, por gosto ou por dever de ofício).

Pessoas que tem respostas rápidas para quase tudo são consideradas inteligentes, espirituosas e mais capazes do que as outras em um debate. Essa agilidade provém de dois fatores. Primeiro, da experiência: o indivíduo já vivenciou uma situação semelhante, de modo que guarda em seu arquivo uma reação apropriada para o estímulo. Segundo, a capacidade de buscar rapidamente a resposta, seja diretamente ou através de associações mais ou menos frouxas.

Nesse ato (o acesso rápido aos seus arquivos), conta grandemente a capacidade de transportar uma idéia de um contexto para outro bem diferente sem que a imagem perca a validade: é o bom e velho uso da metáfora, exercício para o qual as tais mentes são treinadas.

Então por que acontece muitas vezes de portadores de mentes exatas comportarem-se como aquele sujeito da comédia?

A resposta está na própria razão pela qual o indivíduo usa a lógica de maneira corrente. Para eles, a lógica não é um fim em si, uma habilidade que eles gostam de ter para impressionar incautos do sexo oposto. O hábito de pensar logicamente nada mais é do que uma das ferramentas que usa para inquirir – e isso leva tempo.

Inquirir implica questionar. Pessoas lógicas são quase sempre detentoras de uma mente inquiridora e para isso precisam por em dúvida constantemente seus sentidos, os paradigmas do seu arcabouço mental e as verdades estabelecidas por si mesma ou por outrem.

A capacidade de inquirir com profundidade e utilizando a mão segura da lógica é comum a todos nós. O que diferencia os “exatos” é a freqüência e a intensidade do fenômeno. É como uma segunda natureza, um estado de espírito, uma forma de navegar pelo mundo e pela vida.

Mas que se não temperada pela poesia pode ser um problema.

Vejamos um exemplo rastaqüera:

Você está dirigindo por uma estrada moderna na qual as duas vias são separadas por uma parede ou por aqueles anteparos verdes que parecem pirulitos dispostos em fila, um logo após o outro. A finalidade daquilo é impedir que os faróis dos carros em sentidos opostos ofusquem os respectivos motoristas. Acontece que, em curvas para a esquerda, essa barreira oferece um efeito colateral nada desejável: impede que você enxergue para além da curva.

Uma pessoa normal e mentalmente saudável passaria a tomar cuidado – talvez posicionando-se na faixa da direita para ver melhor ou diminuindo a velocidade – e não daria muitos tratos à bola.

Uma mente inquisitiva, contudo, começaria a por as engrenagens do bestunto a funcionar. Porque só para a esquerda? (Porquê no Brasil o tráfego é destro) Na Inglaterra o fenômeno seria inverso, especular? (Claro, idiota. É corolário da primeira resposta). Quantas assimetrias existem? (Uma real, cuja conseqüência é o fato de se perder a visão somente para curvas para a esquerda, e uma falsa, decorrente da mão de direção convencionada.) Como essa assimetria pode ser descrita geometricamente? E se amanhã fôssemos conquistados pelos ingleses a estrada ainda funcionaria do mesmo jeito? Como deveria ser o traçado de uma estrada para evitar esses pontos cegos? Existe solução geométrica simples e elegante, ou teríamos que inventar outra forma de impedir o ofuscamento?

E por aí vai, passando por convoluções topológicas, geometrias não-euclidianas, novos desenhos de faróis, traçados de vias diferentes, anteparos ópticos nada convencionais, etc., etc.

Agora um exemplo mais prático, do dia-a-dia:

O mesmo sujeito lê a declaração de um antropólogo (Luís Roberto Cardoso de Oliveira) no jornal: ”No contexto atual, não teria como [a reversão da demarcação pelo STF] deixar de passar a idéia de que os direitos deles [índios] valem menos do que os dos outros”. Nesse caso em particular a lógica é aplicada para tentar aprender com um luminar, para refinar nossa opinião sobre um tema atual. E conclusão é clara: com antropólogos assim toda piada de loura burra torna-se tremendamente injusta.

Assim, caro leitor, da próxima vez que você vir uma pessoa reagir a uma questão com um decepcionante…

— Hããm?

… volte no dia seguinte e refaça a pergunta. Pode ser que receba uma resposta que mude a sua vida, ou que resolva um velho problema a afligir a humanidade, ou que seja patenteável. Ou nenhuma das anteriores. Como dizia Freud: às vezes um charuto é apenas um charuto…