Pose

— Escola pós moderna.

Ela olhou para trás e viu o rapagão de pé, paletó de tweed, óculos Armani e cara de conteúdo.

— Não, não é. É impressionista.

— Como você sabe?

— As cores. São complementares. Não tem preto. A imagem é representada do jeito que a cena real impressionaria sua retina. E depois — concluiu — não existe escola pós moderna na pintura. É só um rótulo para manifestações culturais depois da…

— Ok. Você venceu.

— Não venci nada. Você não é páreo para um estudante de arte iniciante. Só queria puxar conversa comigo.

Ele sorriu de modo salafrário e estendeu a mão.

— Rodrigo Brognoli.

Ela olhou a mão. Grande, forte, com dedos longos e convidativos. Apertou-a.

— Belinha.

Ele apontou para o quadro.

— Gosto dos quadris. Generosos.

Belinha olhou a pintura mais uma vez. Uma moça deitada na relva, sobre uma toalha de mesa. Ao seu lado, uma cesta de piquenique. Flores por toda parte. E a única peça de roupa na cena era um chapéu grande, caído sobre os olhos da mulher e sombreando-lhe o rosto.

— Só isso? Os quadris?

— Bem… não só os quadris, claro. Os seios são do tamanho certo. Apetitosos eu diria. E o púbis é delicado, quase adolescente.

— Hummmm, fez Belinha. Você foi quase poético.

— O quadro é inspirador.

— A mulher é inspiradora, não o quadro — riu.

— De fato. Uma bela mulher. Pena que não seja real.

Depois aproximou o rosto do rosto da moça, insinuante.

— Mas você é real.

— Não tenha tanta certeza.

— Toma um café comigo?

— Por que não?

“E depois”, pensou, “quero ver o que tem aí além desses dedos”.

Saíram da galeria, cruzaram a rua e foram sentar-se no Fran’s.

-oOo-

Belinha rolou sobre o lençol de cetim e alcançou o relógio. Seis e meia. Logo estaria escuro. Levantou e começou a catar a roupa espalhada a partir do tapete da sala.

— Já vai?

Era o apartamento dele. Belinha não achou sensato dar-lhe a vantagem de saber seu próprio endereço.

— Já. Já vou.

Vestiu a calcinha.

— Posso ligar pra você?

— E porque ligaria?

Rodrigo ergueu o corpo.

— Porquê? Ora, porque gostei de você. Foi uma tarde fantástica.

Voltou-se para que Rodrigo fechasse o zíper da saia, depois deu-lhe um empurrão devolvendo-o ao travesseiro.

— Me achou gostosa, foi?

Rodrigo entrecerrou os olhos

— Você é um tesão.

— Mais do que a moça?

— Moça? Que moça?

— A do quadro. Eu quero saber.

— Ela é espetacular. Se fosse minha não trocaria por nenhuma mulher do mundo. Mas ela não é real, lembra?

— Quem disse? Ela tem até nome, sabia?

— Ah, é? E qual é o nome dela?

— Francesca.

Rodrigo olhou-a intrigado.

— Francesca?

— Hum hum — fez Belinha, esfregando os lábios frente ao espelho para espalhar o batom.

— Francesca, sua noiva.

Rodrigo olhou-a. Primeiro apalermado. Depois francamente assustado.

Belinha fechou o estojinho de maquiagem com um estalo. Jogou-o na bolsa e a pôs a tiracolo, preparando-se para sair.

— Francesca de belas ancas, peitinhos perfeitos e púbis adolescentes. A que você não trocaria por nenhuma outra, lembra?

— Francesca? Modelo? Posando nua? E sem me falar?

— Talvez ela quisesse fazer uma surpresa, bobo. Mas acho que ela vai mudar de idéia. Afinal o noivinho nem é capaz de reconhece-la pelada. Um vexame.

Virou-se e saiu com seu andar mais provocante. Já estava com a mão na maçaneta quando Rodrigo gritou lá do quarto:

— E como é que você sabe disso?

Belinha respondeu rindo, antes de bater a porta com força:

— Porque eu pintei o quadro, bobo.