Por onde andará o Moura?

O Moura é o cara mais gozado que conheci na vida. O estranho é que à época — mais de trinta anos atrás — eu ainda não sabia disso. Claro que conheci, antes e depois, muita gente engraçada, espirituosa, divertida. O Moura não. Ele não era mais engraçado que a média das pessoas, e até exibia com frequência um mau humor tsunâmico.
O caso, se é que você me entende, é que ele sempre se metia em situações hilariantes. Não. não é bem assim. Deixa eu tentar de novo. A mera presença do Moura tinha o poder de transformar situações corriqueiras e até semi-trágicas em casos deliciosos de serem contados. É isso…
Lembrei-me do Moura assistindo dia desses à nova versão da Pantera Cor de Rosa, essa com o Steve Martin. A certa altura, o inspetor Clouseau abre a porta do carro e um ciclista choca-se contra a porta, levando um tombo. Não foi tão engraçado assim, mas eu ri feito louco. É claro que nem Cristina ao meu lado podia imaginar que a cena provocou um zapping na minha cabeça, e eu vi a mesma cena — só que muito melhor é claro — com o Moura.
Era um dia quente em Cubatão, hora do almoço, o Taboada dirigia o fuscão, Moura ao seu lado e eu derretendo atrás. Avenida Nove de Abril, o carro pára em frente ao restaurante de sempre, o do espanhol. Eu louco pra sair da sauna, apresso o Moura. Ele abre a porta e… zás! O ciclista embarafusta fusca adentro, a roda da frente tornada um oito e o infeliz condutor jogado de bruços no colo do passageiro. O moço gemia, o Taboada tentava ajudar e o Moura impedido de fazer qualquer coisa, acometido de um acesso de riso indecente para a situação. O ciclista sacudia na barriga (grande) do Moura, à medida que meu amigo gargalhava. Ele ainda enxugava as lágrimas, sentado no carro, quando o indivíduo era finalmente resgatado pelos passantes enquanto eu bufava no banco de trás.
Mas o castigo veio a galope. Dias depois o Moura ganha de um amigo chegado da Bahia uma especialíssima pimenta. A mãe de todas as ardidas. Com uma recomendação: antes de imergi-las em azeite de dendê, deveriam ser fechadas em um pote para expelir a água nelas contida. O truque consistia em drenar diariamente a agüinha, até que não mais a vertessem, quando estariam prontas para a conserva.
Mês depois, o amigo liga perguntando como estava o Moura apreciando a especiaria. O Moura candidamente responde que ainda não as tinha preparado, pois que ainda aguavam, antes portanto, do ponto. Ante o espanto do amigo, que disse haver algo errado, o Moura decide investigar porquê suas pimentas não secavam nunca. A inquirição doméstica termina com seus filhos adolescentes experimentando a ira paterna, por estarem, diariamente, pingando um tanto de água da torneira no precioso frasco com o único intuito de ver o pai escorrê-la, religiosamente, todas as noites antes do jantar. Salivando.
Eu mesmo protagonizei uma dessas estórias. Nossa empresa prestava serviços à Mobiloil, alí na Alemoa, onde certo dia um dos operários sob nossa responsabilidade sofreu queimaduras numa pequena explosão. O Moura me pediu então para correr à Santa Casa ver como estava o infeliz, antes de levar a mãe e a noiva ao hospital. Queria prepará-las antecipadamente para a visita, mas na medida certa da gravidade do acidentado. Chegando lá, uma atendente me apontou o rapaz na enfermaria (naquele tempo chamada de “geral”). Aproximei-me da cama e vi o crioulo quase nú, com o corpo aqui e ali amarelo do picrato de butesim. Estava bem, sorriu quando disse que receberia visitas, e me pareceu ótimo ante a potencial gravidade do acidente. Até a cabeleira carapinha ainda estava toda lá, prova inconteste de sua razoável integridade física. Liguei pro Moura.
Nem bem chego em casa, liga o Moura de volta, puto da vida. Quase apanhara das duas mulheres no hospital, depois de ter garantido a elas que o rapaz estava perfeito, com excelente aspecto e que elas não deveriam esperar nada de mais. Garantia, aliás, dada por mim mesmo, que não sabia — porquê ninguém me dissera — que o camarada era branquelo e louro…
São tantas a estórias com o Moura que dariam um pequeno livro.
Mas por onde andará o Moura? Não o vejo há um quarto de século. Talvez você, leitor, saiba de quem estou falando. Cartas para a redação, por favor.

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