Pode acontecer a qualquer um

Este conto é fruto de um desafio feito esta tarde. Discutíamos durante uma pequena viagem, meu acompanhante e eu, sobre a possibilidade de se fazer uma estória sobre qualquer coisa. Defendia eu que sim, e então ele me apontou o pára-choque do caminhão à frente e lançou o repto: “aquelas listras no caminhão” – disse ele confiante – “quero ver alguém escrever alguma coisa interessante sobre listras em um caminhão”. Bem… não sei se ficou interessante. Mas nunca fui homem de fugir à raia…

Primeiro foi o caminhão a chamar a atenção de Daniel. O pára-choques traseiro era pintado em listras – branco, vermelho, branco, vermelho – mas havia uma coisa fundamentalmente errada. De um lado as listras estavam inclinadas para um lado. Do outro, inclinadas para o outro lado. Não estavam todas de pé, verticais, como Daniel esquisitamente achou que deveriam estar.

Ultrapassou. Inútil. Logo depois da curva havia outro. Além de amarelas e pretas, estas estavam sujas, encardidas. Sem a luminosidade, o necessário brilho a separá-las. Branco ainda vá lá. Mas a cor compartilhando o espaço com listras escuras? Que se danasse a Polícia Rodoviária. Acelerou até além do limite permitido e deixou para trás, aliviado, aquela… ignomínia?

Começou a suar. Primeiro as palmas das mãos tornaram-se escorregadias ao volante. Depois a testa, o rosto, as axilas. Tentava manter os olhos fixos na estrada, mas a pista era, que quando em quando, desenhada com mais listras. Branco e preto, branco e preto, branco e preto. Deitadas no chão, quando deviam estar eretas, fulgurantes, imponentes mesmo.

Saiu da rodovia. Faltava pouco agora. Sua agonia transparecia na face, no olhar aflito, quase demente, no torcer da boca. Suportou com estoicismo as faixas de pedestres, a bandeira, o lenço na cabeça da mulher na calçada, verde, azul, verde, azul contorcendo-se até terminar em um asfixiante laço. Cada visão era uma angina, uma dor surda, um latejar no peito de um enfartado que só tinha seu recesso quando os olhos se fechavam.

-oOo-

Subiu as escadas correndo, ofegando. Não podia suportar mais o papel de parede no elevador, com suas listras enviesadas.

— Elza! Elza!

— Querido! Você demorou… Meu Deus, o que foi? Que cara é essa? O que aconteceu?

— Elza… – gemeu Daniel, largando o corpo no sofá – Água! Tem água?

A mulher correu para a cozinha. Quando voltou tinha nas mãos um copo enorme de água gelada. O marido sorveu tudo de uma só vez. Depois olhou em volta, ainda transtornado. Os arabescos do tapete, o suave bege das cortinas fechadas (graças a Deus não eram persianas!), o contínuo verde-limão do sofá pareceram acalmá-lo. Um pouco.

— O que foi meu amor? Você está bem? Está me assustando.

Daniel conseguiu um rascunho de sorriso.

— Estou. Agora estou. Já passou.

— Passou o quê?

— Não sei. Um mal estar. Alguma coisa… aqui. Tocou o próprio peito.

— Como uma angústia?

— É.

— Escuta, pode ser o coração. É melhor a gente ligar pro doutor…

— Psssstt… — fez Daniel colocando a mão delicadamente na boca de Elza – Não é nada. Se fosse um enfarte eu não estaria falando com você agora. Prometo que amanhã eu mesmo marco uma consulta se isso te deixar mais tranqüila, está bem?

Elza fingiu estar convencida. Sabia o quanto o marido podia ser cabeça dura. Amanhã ela mesma ligaria para o médico.

— Escuta, vai tomar um banho bem demorado. Vai te fazer bem. Vou esquentar a comida e deixo a mesa posta para você. Depois vou deitar que tenho aula bem cedo.

-oOo-

O vapor da água embaçara o espelho, os azulejos e ainda deixara no ar uma névoa agradável, difusa, distorcendo as formas, ocultando as linhas retas. Daniel finalmente relaxara. Quase era ele de novo.

Deixou intocado o tubo de Close-Up e escovou os dentes com sabonete. Ajeitou os cabelos com a escova de Elza, evitando tirar o pente da gaveta.

Entrou no quarto ainda nú, purificado, renascido. Não tinha fome. Sua mulher sempre deixava a comida escrupulosamente coberta, ele sabia. Pois que ficasse. Acendeu o abajur e apagou a luz do teto. Elza dormia,os cabelos negros desarranjados sobre o travesseiro.

Foi então que afastou o lençol e viu. A camisola de Elza, curta, excitante, única peça sobre a pele. E listrada. Rosa e branco, carmim e branco, vermelho e branco…. A dor voltou sem aviso. Abafada, insuportável, angustiante. E o suor, e a máscara contorcida, e a boca repuxada, e os caminhões, as faixas, as bandeiras, os lenços, nada como deveria ser, nada era direito. Pornográficas, ultrajantes, pecaminosas, erradas.

Daniel abriu a gaveta e apanhou a arma.

Disparou uma vez, duas, três, quatro…

-oOo-

O sonho era recorrente. Estava numa savana, sob o sol escaldante. Transpirava muito deitado sobre a pedra, esperando. A poeira ao longe denunciava o animal a galope, a figura crescendo, ganhando forma, tornando-se nítida até chegar bem perto. Podia sentir o bater dos cascos no chão como se fossem em seu próprio peito. Espera. Espera até o último instante. Até ver o torso listrado, brilhante. Contrai o dedo pousado no gatilho da potente espingarda e o animal interrompe a marcha, suas pernas falham. Cai sobre ele, sufocando-o.

Daniel acorda sobressaltado. Respira profundamente, sofregamente. A razão tarda em devolvê-lo à vigília, à compreensão de que fora o pesadelo outra vez.

Levanta-se e vai até a pia de ferro de sua cela. Lava o rosto. Bebe um pouco.

Depois se ajeita de novo na cama, sentado, as costas na parece úmida e fria. Estava escuro ainda, mas não por muito tempo. Daniel espera.

O dia amanhece primeiro com sua cor de laranja, depois como um clarão cegante, límpido. Filtra-se pelos vãos das barras de ferro num padrão vertical, escorreito, puro. Listras de puríssima luz e sombra, como devem ser todas as listras.

Daniel está em paz.

Ilustração: Missing Cuneiform Character de Kazuya Akimoto (www.kazuya-akimoto.com)