Plano B

Eu tinha então meu primeiro carro, um fuscão verde, placa WM1166. Naquele verão minha namorada era a Sônia Virginia. Não era bem verão, mas em Santos a gente divide o ano em apenas duas estações: a estação do calor e o verão. Setembro cai no verão.

Desculpem-me os leitores de Assertiva, acostumados a descrições de deliciosos personagens da minha vida. Não vou tentar descreve-la como deliciosa. Basta que saibam que ela era mesmo uma delícia de pessoa.

Nosso relacionamento era assim como um desses programas de reprodução animal do Discovery Channel. E naquele feriadão de sete de setembro resolvemos gravar mais um capítulo na praia de Iporanga. Caímos na estrada na noite do dia 6, debaixo de chuva. Sim, a gente acampava na chuva. Assim não precisávamos sair da barraca a passear, o que era uma perda de tempo.

Chega-se à praia de Iporanga pela Guarujá-Bertioga. No meio do caminho, uma estrada de três quilômetros de terra (ou lama) à direita, levava ao que então era um paraíso deserto. Duas lindas praias interligadas por um campo de pouso. E uma cachoeira escandalosamente bela, de frente para o mar.

A pouca visibilidade, aliada à inexperiência do motorista e à distração proporcionada pelo ensaio do próximo episódio pelos ocupantes do veículo acabaram por fazer com que eu passasse do ponto. Dei-me conta do erro ao chegar à fila da balsa — já quase em Bertioga, portanto.

Parei, interrompemos o ensaio e eu me preparei para dar meia volta. Começando, é claro, pela marcha-à-ré. A pouca visibilidade aliada à inexperiência do motorista e à alienação dos sentidos provocada pelo ensaio, etc, etc., provocou o desastre. Bati no carro atrás de nós, que já se alinhara na fila para a travessia.

Desço para ver o estrago. O primeiro de muitos na minha carreira automobilística. O motorista do outro carro desce também. A lanternona Fafá de Belém do fuscão continuava intacta, mas havia perfurado o farol do adversário. O carro do homem ficara caolho. E o homem era grande. Bem grande. Antes que eu alinhasse as idéias para me desculpar, o sujeito começou a vociferar. Bradava que seu carro era novo. Que ele não poderia seguir viagem daquele jeito. Que teria que dormir em Bertioga com a família, o que custaria uma fortuna. Desfiou todas as despesas, custos, indenizações por danos morais e lucros cessantes. Finalmente passou a régua, somou tudinho e anunciou o resultado. E que puta resultado. Um mês de salário. Do meu, graças a Deus. E calou a boca, esperando pelo cheque.

Eu não tinha cheque. E o que era pior: eu nem tinha carteira de motorista. Mas aproveitei a brecha para argumentar. Expliquei por que dera a ré, falei da baixa visibilidade (omiti o resto), e declarei que, por razões de segurança, nenhum campista sensato carregava cheque consigo. E nem muito dinheiro também. Há muitos furtos nessas praias desertas, sabe como é.

E aí começou a negociação. O homem aceitava um documento meu como garantia. Em troca eu me comprometia a mandar o dinheiro para o seu escritório. Me deu um cartão. À luz do único farol saudável do seu carro descobri com quem estava falando. A vítima da minha imperícia (e das outras circunstâncias também), tinha um nome alemão pomposo, e era diretor super-sei-lá-o-quê da Fundição Tupy. Pica grossa.

Não aceitei o trato. Entregar documento meu? Nem pensar. E aí o homem bufou, sentenciando: “Então vamos resolver isso quando chegarmos à balsa, lá com a Polícia Rodoviária”. Virou as costas e me deixou ali, na chuva.

Não lembro a marca do carro do alemão. Lembro que era um desses caros, importados. E que estava puxando um reboque, desses só para a bagagem, coberto por uma lona. Entrei no fusca, de onde Sonia Virginia já se preparava para sair e entrar na discussão. Impedi-a, dizendo que tinha um plano. Assim que a fila andasse, eu ia esperar uma boa distância para ganhar espaço de manobra. Depois eu faria a volta bem rápido e, antes que o sujeito se desse conta ou conseguisse manobrar o seu mamute — reboque incluído — nós já estaríamos longe, a caminho de outra praia qualquer.

Mas Sonia Virginia tinha um plano B. Aliás, ela sempre tinha um plano B. Às vezes funcionavam, às vezes não. Não quero lembrar das vezes em que falharam. Ela abriu a porta e, antes de sair, instruiu-me direitinho sobre qual seria minha parte no plano: “Não sai daqui” (lembro-me de suas instruções em pelo menos dois outros planos B: “Só larga quando eu mandar” ” e “Fecha os olhos e empurra”).

Bateu a porta e sumiu. Eu pretendia ficar quieto, aguardando os acontecimentos. Mas não deu. Agora eu não ouvia mais a peroração do homem, mas uma voz feminina repreendendo alguém. E não era da Sonia Virgínia.

Não aguentei. Saí do carro outra vez, em socorro da namorada. A cena que me aguardava era confusa. Parada na chuva, cabeça baixa, contrita, Sonia Virginia tinha sobre os ombros o braço de uma mulher alta, loura e furiosa. Com a mão livre, dedo em riste, a valquíria espinafrava o alemão. “…não vê que são dois meninos? Que diferença faz um farol a mais ou a menos nessa porcaria de carro? E olha o estado dela. OLHA o estado dela!! Passando nervoso e em baixo de chuva!”

Rapidamente, com uma agilidade de raciocínio que seria minha marca registrada trinta anos depois, tomei pé da situação e corri a acudir minha esposa. Recolhi-a dos braços de nossa salvadora e, protetoralmente, guiei seus passos hesitantes até a porta direita do Fusca. Ajeitei-a no assento com o desvelo só dedicado à futura mãe do seu primogênito.

O alemão teve que conversar com os motoristas de dois carros atrás dele, para que recuassem um pouquinho, dando espaço para que eu manobrasse. Manobra que fiz com todo vagar e cuidado. Depois, acelerei a caminho de Iporanga, enquanto Sonia Virginia tirava o travesseiro de baixo da blusa de malha.