Pioneiríssimo do skate

Retroplanet

O skate é um esporte radical com tecnologia de ponta. Rodas de uretano, pranchas de composite e por aí se vai. Para um cara como eu, avesso à prática de qualquer tipo de esporte, é quase impossível imaginar como alguém possa fazer uma coisa tão difícil e arriscada. Na minha adolescência eu fui um intelectualóide chato, um nerd, cercado por livros e discos, revistas de fotografia e eletrônica, e edições da Scientific American, certo?

Não, não está muito correto. Acontece que entre as revistas das quais eu era fã estavam as edições brasileira e americana de Mecânica Popular. Na edição do final de 1964 havia uma reportagem mostrando jovens californianos descendo ladeiras em umas geringonças de madeira compensada com quatro rodas, praticando o que a revista chamava de “surf de asfalto”.

No verão de 65, alguém montara um ringue de patinação na avenida em frente à praia do Gonzaguinha, em São Vicente. Carlão e eu tornamo-nos freqüentadores mais do que assíduos. Patinávamos todos os dias, sem falhar nenhum. No começo, quando a grana era curta, quem tivesse dinheiro para pagar a meia hora ficava na pista por quinze minutos, dividindo fraternalmente o tempo com o parceiro. À medida que o verão avançava, ficamos eventualmente muito bons naquele negócio. O dono do ringue deixava então que a gente patinasse o tempo que quisesse, de graça, para atrair os fregueses mais renitentes. Desnecessário dizer que muitas moçoilas paulistanas aprenderam a patinar em nossos braços, sempre respeitosos, jovens cavalheiros que éramos.

Para completar, eu conseguira um legítimo par de patins Torlay, o melhor do mercado de então, pelas mãos de outro amigo, William Antonio Torlay, sobrinho do fabricante, e que morava ali na Presidente Wilson. Eram usados, mas estavam em perfeito estado e, principalmente, nenhum jogo nos rolamentos.

Um dia, para tristeza nossa, o verão acabou e, com ele, foi-se embora o nosso ringue. Os patins foram aposentados. (Ano seguinte uma pista de gelo apareceu em Santos, e pudemos ter nosso verão de Holiday on Ice, mas isso já é outra história).

Foi quando prestamos atenção àquela matéria na Mecânica Popular. Dois patins Torlay, com quatro rodas cada um. O bastante para duas pranchas de surfe de asfalto. Duas tábuas de pinho cuidadosamente modeladas, alguns parafusos e estávamos prontos.

A estréia aconteceu na pequena ladeira da calçada da Praça da Bandeira. Passamos horas tentando ficar em pé naquela tábua por mais de dez segundos. Finalmente pegamos o jeito da coisa. Que delícia! A gente deslizava, fazia slalon, surfava de pé, agachado, numa perna só. Aos poucos a molecada foi se aproximando, fazendo perguntas, pedindo para experimentar. Acabaram com o estoque de patins Bandeirantes da cidade, baratos e menos resistentes, mas quem se importava?

Depois foi a ladeira do Cinemar, mais perigosa. Finalmente conquistarmos as calçadas da Ilha Porchat. Alguns, mais ousados, chegaram a experimentar o asfalto lisinho do Morro do Maluf, no Guarujá. Carlão e eu já não estávamos entre eles. As férias de julho chegaram, as rodinhas Torlay estavam no osso, e nosso interesse já estava, de corpo e alma, na primeira transmissão de rádio entre a Ilha Porchat e a Biquinha, feita com um par de walkie-talkies montados por nós na mesa do quintal da Dona Maria. Em 27 MHz! Marconi era pinto.

Recordei tudo isso em uma conversa com a prima Claudia, a caminho da Santa Casa de Santos. Cheguei em casa e fui conferir na Internet. O skate chegou ao Brasil em meados de 65, dizem os historiadores do esporte. Dizem que foi no Rio de Janeiro. Depois, caiu em desuso, aqui e nos estados Unidos, até que em meados dos anos 70 um químico americano, Frank Nashworthy, descobriu o uretano. E o Skate renasceu, até tomar a forma que tem hoje.

Por isso, garotada, exijo respeito e o lugar que me cabe na história. Carlão e eu fomos pioneiríssimos do esporte. Mas não me peçam para ficar de pé outra vez num negócio desses. Cruz credo!