Olha a água, menino!

Olha a água, menino!

Em um dos exercícios de escrita aqui em Assertiva (Herança maldita, 2 de março), destilei meu rancor contra os politicamente corretos de forma bem-humorada, mas não menos representativa do conceito que faço dessa gente. Na ocasião deixei entrever também, en passant, meu nariz torcido para com os ambientalistas, chamando-os de ecotrambolhos.

Pois bem, minha gente: houve protestos; houve protestos. Os amigos tiveram a delicadeza de não manifesta-los publicamente através de comentários no blog — embora fosse natural que o fizessem — mas cobraram uma posição mais clara sobre o tema.

Por isso, aqui vamos nós.

Ninguém, em sã consciência, nega a necessidade do crescimento cada vez mais rápido da preocupação com a preservação da natureza e da vida. Temos escarafunchado demais o planeta, usado de forma irresponsável seus recursos. E já estamos sofrendo os efeitos do abuso.

A minha implicância não é com o ambientalismo: são alguns ambientalistas que me incomodam. São aqueles que alguém chamou de ecoxiitas. Então, para ser justo, calibrei minha bateria precisamente sobre esses, para não colocar toda a militância no mesmo saco de farinha.

Mas quero ressaltar duas coisas bem claramente: primeiro, que os ecoxiitas parecem ser maioria absoluta no grupo. Digo “parecem” porquê são os que fazem mais barulho. E também que os ecoxiitas são parte integrante do conjunto de ambientalistas. Não adianta dizer ”Ah, bom, porquê essa gente não é ambientalista de verdade”. Isso não cola, porque “essa gente” é aceita (e frequentemente aplaudida) pelos militantes sérios e equilibrados, como parte da entourage.

Como resultado, o comportamento percebido do movimento ambientalista como um todo fica contaminado pelo pensamento e ações desses pulhas, e é esse sobre comportamento resultante que escrevo. Por isso — para preservar os bons — quero que fique registrado que vamos falar do movimento ambientalista, e não dos ambientalistas.

Dito isso, vamos ao tiroteio.

O ambientalismo é estanque. O movimento acredita ser dono da verdade, e único baluarte contra a destruição do planeta. Mas não é o único, e nem sequer o mais importante. O conjunto de forças que pode evitar um triste fim para nosso planeta é muito mais amplo, e o movimento ambientalista é apenas uma parte dele. A parte que se propõe a conscientizar o mundo. A agir politicamente. Mas o movimento não apenas precisa enxergar essas outras forças, como também compor-se com elas, em vez de atacá-las e desdenhá-las.
Essas forças extra-movimento ambientalista são compostas principalmente por cientistas, engenheiros e empresários.
O ambientalismo é incapaz de reconhecer que já é possível construir-se uma estrada sem destruir a floresta, a bacia hidrográfica, ou a santa paz dos macaquinhos-prego. Há inúmeros exemplos disso, mas quem liga? Enquanto o anel rodoviário de São Paulo não sai, a rodovia dos Imigrantes corta a Serra do Mar numa boa, bem ali do lado. Enquanto isso, milhares de caminhões e automóveis em primeira e segunda marchas poluem diária e barbaramente a cidade de São Paulo, para gáudio de alguns ambientalistas desonestos.

O ambientalismo é um movimento político, como todo movimento que busca alterar relações sociais e comportamentos coletivos. É natural e bom que seja assim. Mas quando ambientalistas se valem da natureza política do movimento para fazer politicagem, todo mundo paga o pato. Relatórios de impacto ambiental estão perdendo a credibilidade ao serem usados (melhor dizer brandidos) por pessoas cujo único fito é retardar obras que não lhe são (politicamente) convenientes.

O ambientalismo desinforma. Um exemplo bom disso é a luta pela água. Segundo o movimento, devemos preservar a água porque ela vai acabar. Dizem também que a próxima grande crise da humanidade será a falta de água. E por aí se vai. Ora bolas, só há três maneiras do planeta ficar sem água: se a água se transformar noutra coisa que não água, se ela evaporar e perder-se no o espaço sideral ou se alguma Sabesp alienígena resolver usar nosso planeta como fonte de abastecimento. Nada disso está acontecendo. Pelo menos não de modo a causar preocupação. O que pode faltar — e pelo andar da carruagem vai faltar mesmo — é água potável.
Outro dia estava eu no shopping Tamboré, cuja administração investe na defesa da água. Um grande cartaz, postado em um totem no corredor, exortava o distinto público a abraçar a causa. Nele se informava que a distribuição da água pelo planeta é absurdamente desigual (falha lastimável da mãe natureza), que tantos por cento da população do planeta não tem água para beber (ou seja, já morreram) e outras estatísticas assustadoras. Não dizia claramente o que o distinto cidadão pode fazer concretamente a respeito, a não ser “unir-se ao movimento”. A informação mais interessante dada ali é que cada dez litros de água usada por uma pessoa poluem outros dez mil litros!

A iniciativa dos empresários do Tamboré é louvável? Claro que é. Sua preocupação é real? Vamos mesmo ficar sem água potável? Sim e sim. Estragamos muita água boa simplesmente usando um pouco em nosso dia-a-dia? Estragamos, sim senhor. Cada vez que fazemos cocô e damos a descarga, milhares de litros de água que sequer passaram perto de nosso traseiro serão contaminadas, caso o sistema de esgoto não seja adequadamente desenhado e instalado; se não houver um bom sistema de saneamento em nosso bairro.
Quando vestimos uma camisa limpa ou bebemos água num copo, não nos perguntamos para onde foi o detergente usado para lavar essas coisas. Porquê ficar apenas desfiando números, em vez de explicar que a luta consiste em exigir mais investimento em saneamento, ou leis que obriguem o uso de produtos de limpeza menos agressivos? Porquê não dizer que água não vai faltar, mas que corremos o risco de morrer de sede às margens de rios caudalosos mas carregados de lauril sulfado de sódio, cloreto de diestearildimônio, hidroxietilcelulose e merda? Que vamos implorar por algo para beber, mas com a bunda cheirosa, camisa com o branco mais branco e cabelos lisos e sedosos?

Muitas boas causas já foram para o brejo porque defendidas da maneira errada. A preservação da água potável corre esse risco.
O ambientalismo tem uma faceta fanática e burra, da qual se aproveitam espertinhos como o tal francês Bové, e outros pelo mundo afora. Repetem as mesmas gastas ladainhas contra o capitalismo e a globalização enquanto destroem laboratórios de pesquisa e plantações experimentais. Em vez de destruir propriedade alheia — embora isso não seja crime no Brasil — os ambientalistas deveriam lutar politicamente por maior transparência no desenvolvimento de novas tecnologias.

Organismos geneticamente modificados certamente apresentam algum tipo de risco, por mais que se diga que não. Cabe à sociedade aceita-los ou não. A humanidade sempre aceitou riscos calculados, como andar de carro ou tomar antibióticos. Mas o povão só vai decidir o que quer se souber a que risco, exatamente, está exposto. Isso é trabalho do movimento ambientalista, e não é preciso virar bandido para atingir o objetivo.

Uma prova de que é possível dobrar uma grande corporação é a atuação de Ralph Nader nos Estados Unidos. Quase sozinho, ele conseguiu fazer com que a indústria americana fabricasse carros mais seguros, apenas conscientizando o público de que isso era necessário e possível. O resto o tal de mercado se encarregou de fazer. Tivesse ele ateado fogo ao pátio da General Motors e nós ainda estaríamos andando em esquifes ambulantes — e o Ralph na cadeia.

As questões do meio-ambiente são coisa séria, e por isso deveriam ser tratadas com seriedade. Clima, biodiversidade, modelo econômico, políticas industriais, interação do homem com a natureza e outros temas importantes estão sendo discutidos por gente capaz e séria. Muito já se avançou nas últimas décadas, mas se queremos avançar mais rapidamente precisamos colocar os espertinhos no seu devido lugar.

As pessoas melhor posicionadas para expurgar os desonestos são os próprios ambientalistas honestos. Um movimento dentro do movimento. Instruir melhor a militância para que pare de repetir argumentos vazios, falaciosos ou simplesmente mentirosos.

Denunciar sem medo os aproveitadores. Compreender que há muita gente ansiosa por ajudar, mas que são refreadas pelo compreensível pejo de misturar-se com mercenários de uma causa justa.
E agora chega, que preciso tomar banho. Com lauril sulfato de sódio, cloreto de diestearildimônio, hidroxietilcelulose…