Olé!

Há muitos anos atrás, uma empresa chamada Coca-Cola lançou um refrigerante no Brasil. O formato de suas garrafinhas já era, então, um ícone muito bem cuidado pela companhia. A vidraria Cisper foi contratada para produzi-las aqui.

Era preciso fazer uma matriz para os moldes, e para isso seria necessário mais que um ferramenteiro. Precisavam de um artesão, uma pessoa tão capaz que pudesse realizar um trabalho perfeito.

Foram buscá-lo na Europa. Chamava-se Faustino Suarez e era espanhol. Eventualmente Fausto — como gostava de ser chamado — casou-se com uma brasileira e teve dois filhos tupiniquins. Um deles, Daniel, tive a honra de iniciar nos mistérios da eletrônica, a pedido de meu amigo, seu pai.

Como Fausto, centenas de milhares de espanhóis e seus descendentes vivem no Brasil. Muitos vieram para cá trazendo suas artes mecânicas e ajudaram a impulsionar nossa incipiente indústria. Praticamente todas as ferramentarias de São Bernardo do Campo, berço e então Meca de nossa indústria automobilística, foram montadas sob orientação desses mestres dedicados, competentes e tão afavelmente latinos.

Mas também recebemos muitos espanhóis refugiados de sangrenta revolução e, depois, de uma ditadura, cruel como todas.

Três dos meus filhos ostentam com orgulho o Romero em seus sobrenomes, da parte do bisavô materno.

Hoje, mais que cidadãos espanhóis, migra para estas terras suas corporações. Telefoníca (sic), Santander, Sidenor, Repsol, Inditex, ENDESA e tantas outras. Compraram e Vivo e a TVA. Investirão também em estradas, tendo vencido recentemente uma concorrência do Governo Federal. E em breve podem estar cobrando pedágio bem aqui do lado, no Rodoanel.

Nada mau. O capital espanhol é tão bom quanto qualquer outro. E com exceção da Telefoníca (sic) e suas empresas-filhote, a maioria presta serviços de qualidade. Ou pelo menos não são melhores nem piores que as demais.

No último ano, mais de 400 brasileiros foram impedidos de entrar na Espanha. Um traço comum a todos os relatos: a falta de respeito com que foram tratados, a incomunicabilidade com a família. Sem água e sem alimentação. Impossível que fossem todos uma ameaça à Espanha, ou imigrantes ilegais, ou traficantes.

O Itamaraty já fala em tratamento igual aos chegantes espanhóis. Uma enquete no site do Estado de S. Paulo já aponta 87% de votos a favor de uma retaliação (entre 2.406 votos somente hoje). Que me desculpem os conciliadores, mas eu concordo plenamente. Somente quando executivos e estudantes espanhóis sentirem na pele o mesmo remédio, o governo Ibérico vai ouvir o que temos a dizer.

Somos um país digno de respeito, embora não pareça. Temos o dobro do PIB da Espanha, o que nos torna um interlocutor de peso. Está na hora da diplomacia brasileira agir.

De quebra, talvez eu tivesse o prazer de ver um executivo da Telefoníca (sic) amargando algumas horas (dias?) em uma saleta do aeroporto sob guarda da Polícia Federal. Com direito a pão e água porque, afinal, não somos bárbaros.