Obrigado, Dr. Zilenovski

Dr. Alex Zilenovski

Tenho cá minhas diferenças com juízes de direito. Não me entendam mal: adoraria ver na magistratura o grande bastião da democracia, o último recurso do cidadão ofendido em sua cidadania, etc., etc. Mas não consigo simpatizar com uma classe que se julga no direito de gozar férias maiores que os outros trabalhadores — embora vivam choramingando a falta de tempo para cumprir suas funções.

Eximem-se de suas responsabilidades quando culpam o executivo pela falta de dinheiro, ou o legislativo por não fazer leis que impeçam a magistratura de soltar bandido a torto e a direito. Mobilizam-se apenas e tão somente na defesa de seus já gordos salários, salpicados de adicionais indecentes para os padrões brasileiros, como auxílio moradia, por exemplo. Como se nós, mortais comuns, não pagássemos nossos alugueres com a graninha do mês e olha lá. E ainda têm lá aquela maneira empolada de se manifestar, o tal “juridiquês”, como se escrever simples e corretamente fosse chinfrim demais para os doutores.

Por tudo isso, não poderia esperar que um juiz me proporcionasse alguma emoção na vida. Logo na minha vida, tão pacata, tão carente de adrenalina.

Pois que minha família foi vítima de um daqueles telefonemas, correntes hoje em dia, nos quais um bandido qualquer liga da cadeia para aterrorizar gente decente, com a tal história de que minha filha havia sido seqüestrada, e sua mãe à beira da morte após um acidente na estrada. Tudo junto.

Compreendo que faz parte da “profissão” do facínora essa atividade. É a sua forma de defender o seu pozinho de cada dia. Mas as ligações foram feitas de um celular e sabe-se que o “resgate” pedido é exatamente em créditos para celulares em mãos de presidiários.

Não sei o nome do sujeito que fez as ligações. Não sei nada sobre ele, a não ser que ganha a vida cometendo crimes. Mas sei muito bem o nome de Alex Tadeu Monteiro Zilenovski.

E quem é o Zilenovski — perdão — Dr. Zilenovski? É o homem que resolveu não prorrogar o bloqueio de sinais de celulares nas penitenciárias, segundo ele para beneficiar a população. Ele é juiz de direito. Mais que isso: juiz corregedor.

Seus argumentos são nobres, e seu raciocínio cristalino. Segundo ele, a população estava sendo prejudicada pela medida. Alega também que o problema exige medidas mais efetivas do que o mero bloqueio dos sinais de celulares nas cercanias do xilindró. E, para não perder o costume, jogou a culpa nos outros: “O dever de impedir a entrada de celulares nos presídios é do Executivo Estadual”.

É claro que o Dr. Tadeu não disse nenhuma mentira. Só que seria mais inteligente manter o bloqueio, ao mesmo tempo que fizesse um movimento efetivo, qualquer movimento, para pressionar o Sr. Cláudio Lembo a varrer dos presídios as linhas de comunicação ilegais.

O que quero dizer, com todas as letras, é que o Dr. Tadeu engrossa o cordão dos homens públicos que limitam-se a jogar o problema no colo do outro homem público. É claro que o problema não está no telefone celular, mas dentro das prisões. É claro que o governo do estado não está fazendo nada para enfrentar o problema em suas raízes. Mas também é claro que a sociedade está vivendo uma situação de emergência, em cujo contexto os remédios emergenciais fazem sentido.

Existem, sim, soluções técnicas para promover o bloqueio de celulares em áreas delimitadas. As operadoras sabem disso. Sabe-se também que contar com o espírito público das operadoras é esperar em vão. Gastar milhões para botar seu logotipo na camisa da seleção brasileira dá lucro. Encarar com seriedade um problema de segurança pública não dá. Então, deveríamos contar com pessoas como o Dr. Zilenovski para obrigar essa gente a mexer a bunda da cadeira e fazer a sua parte.

E enquanto o Dr. Zilenovski e seus pares não logram obter sucesso com essas empresas, bem poderiam manter a atual forma de bloqueio — meia-boca por incômoda — , mas eficaz, em vigor. Sem prejuízo da forte pressão para que o Sr. Cláudio Lembo fizesse a sua parte, o que certamente demandaria mais algum tempo.

De qualquer forma, Dr. Zilenovski, muito obrigado por ajudar a colocar um pouco de emoção em nossas vidinhas inssossas. Bem que estávamos precisando.