O quarto mágico

O Neiva CAP-4 Paulistinha do meu primeiro voo

Em São Vicente, ali na Antonio Emerich entre a Praça do Correio e a Primeiro de Maio, havia antigamente uma farmácia. Chamava-se Farmácia Nacional, se não me falha a memória. Estou falando de 1963. Nos fundos, com entrada pela rua lateral, morava a família do farmacêutico. O filho mais novo, Decinho, era meu amigo.

Nossa amizade nascera de um amor comum pelos aviões. Eu freqüentava sua casa, e o seu quarto repleto de aeromodelos era uma espécie de antecâmara do paraíso. Com ele eu aprendi os fundamentos de um hobby que me acompanharia pela vida toda. Meus olhos de menino enchiam-se de admiração e respeito ao ver o Decinho transformar a áspera (madeira) balsa das fuselagens em superfícies lindas, brilhantes e lisinhas, usando dope, talco, Coralit, amor e paciência. Acho que foi com Decinho que aprendi a paciência. E a jogar xadrez também.

Nós saíamos aos sábados para voar os modelos. Íamos às vezes à Praia Grande, no campinho de futebol que havia (há ainda?) ao pé do Forte do Itaipu. Outras vezes, os modelos voavam no antigo campo de aviação do Aeroclube de Santos, no espaço bem em frente ao hangar, entre os aviões de verdade. E a gente se encantava com os CAP-4 Paulistinha , com o Fairchild PT-19, e em dia de festa com o Bücker do Comandante Bertelli. E com o próprio Bertelli desenhando o impossível no céu.

Foi num desses dias que voei pela primeira vez. O Profeta (nome dele mesmo) convidou o Decinho para um vôo. Meu amigo, às voltas com um motor Enya que não queria pegar direito em seu modelo novo, recusou a oferta e perguntou se eu queria ir no lugar dele. Aboletei-me no assento traseiro do RKU antes que o Profeta pudesse dizer pindamonhangaba.

Tenho esse vôo gravado no meu HD mental como um dos arquivos mais preciosos da minha vida (junto com a primeira vez que toquei os seios de uma menina, e tantas outras estréias da mesma pasta). Lembro-me da trepidação — minha e do avião — e dos sons, e dos cheiros. Lembro da voz do piloto me dizendo para bater nas suas costas, caso meu estômago não fosse aviador durante as perdas, estóis, oitos cubanos e outras peripécias. Me fascinou a roda do avião lá fora, tão longe do chão, estranhamente inútil e inerte, enquanto o Paulistinha flutuava acima da cidade, da floresta e do mar. Foi naquele vôo que aprendi que tudo é possível, quando os sonhos do ponto de partida são modelados pela razão e pelo tezão das coisas.

Mas vamos voltar ao quarto na casa do Decinho. Lá, por um desses caprichos dos prédios antigos, havia uma coluna. E foi junto à essa coluna que eu vi, também pela primeira vez, um artista trabalhando. Decinho tem um irmão, chamado Marco Antonio Coelho Pullin. Piloto e artista. Pullin usava — não sei se sempre — essa coluna como cavalete. Nela prendia a tela e depois ficava, de pé, pintando. Pincelava e pincelava, depois recuava para apreciar o efeito. E pintava mais. Não tínhamos intimidade. Eu era somente o fedelho amigo do fedelho seu irmão, e por isso eu não chegava muito perto. Ficava à distância, mesmerizado pelo seu trabalho e, quando ele se ia, corria a ver de perto a imagem em formação. Tentava identificar o ponto que ele corrigira com o cabo do pincel, ou onde tinha ido parar aquele vermelho tão vivo que eu vira espremer do tubo.

Nome conhecido por todos os amantes da aviação, Pullin colocou em telas belíssimas imagens de aviões, ilustrando momentos preciosos que certamente povoam sua paixão pelo vôo. Uma dessas pinturas — a que ilustra este texto e que roubei sem permissão — mostra um dos dois CAP-4 do Aeroclube de Santos de então, o PP-RKU (o outro era PP-GTQ, carinhosamente chamado pelo pessoal de Garrafa Térmica Quebrada). Esse é o RKU da minha história. Em segundo plano, no solo, vê-se o hangar e o pátio onde Decinho voava seus pássaros mágicos.

Nunca me tornei piloto de verdade. Não de aviões. Vôo nas asas da arte que escolhi para mim na vida, e que gosto tanto.

Mas nunca perdi a paixão pela aviação e quando estou, ainda hoje, a bordo de um jato e por vezes com mais horas de vôo que o comandante lá na frente, olho para as nuvens e lembro daquele primeiro vôo. E me vejo menino, temperando os sonhos com a razão e cheio de tezão pelas coisas.