O ovo da serpente

(Esta postagem foi originalmente publicada com uma ilustração, na qual aparecia a faccia do Presidente. Retirei-a. Assertiva não merece. O leitor não merece. Ninguém merece.)

Tenho mordido a língua nos últimos meses, mas agora vou ter que soltá-la. Em nenhum momento, em Assertiva, comentei a reeleição de Lula. Até porque muitos dos seus leitores devem ter votado nele.

O que me fez mudar de idéia foi a VEJA desta semana, na qual Roberto Civita, em editorial de Ano Novo, dá de barato que Lula tenha, finalmente, mudado. (Ia quase dizendo “para melhor”, mas em se tratando de Lula, seria redundância).

Fico indignado com a falta de visão (ou excesso de má fé, não sei), das chamadas elites intelectuais do país, com relação a Luis Inácio Lula da Silva. Não acho crível que homens como Roberto Civita e tantos outros não tenham ainda enxergado a verdadeira natureza do sujeito.

Nunca me iludi com Lula, desde quando esse era apenas o apelido dele. Conheço a cepa desde adolescente, quando colegas meus (alguns morreram), se empenhavam em transformar o país numa republiqueta cubanizada, em contraposição aos que queriam perpetuar a republiqueta militarizada.

Da mesma forma, nunca entrei nessa coisa boba de ficar eufórico apenas porque um “operário” chegou à Presidência da República. Pena que, à época, Assertiva não existisse, ou eu teria deixado registros para comprovar o que digo.

A eleição de Lula sempre foi motivo para desalento e tristeza. Arrivista, autoritário, ignorante e intelectualmente desonesto, nunca escondeu sua verdadeira natureza para quem quisesse, de fato, vê-la. E a cúpula do PT não lhe fica atrás. Salva-se, talvez, parte da militância iludida e festiva. Nenhum pai honesto jamais poderá apontar Lula como exemplo para seus filhos. Embora vote tolamente nele, vez ou outra.

Exemplos não faltam, desde quando o “operário” manteve sob cárcere privado trabalhadores de verdade, em célebre greve do ABC paulista. Episódio que, aliás, a gauche intelectualha brasileira faz questão de obliterar em suas frágeis memórias. E os exemplos seguem, até culminar com as recentes tentativas de calar a imprensa através de iniciativas fidélicas, manuais do politicamente correto feitas com o nosso dinheiro, e um esforço titânico para piorar o ensino no Brasil. Para citar apenas alguns e ainda deixar de fora a roubalheira claramente evidenciada em todo o primeiro mandato.

A reeleição foi, para mim pessoalmente, a gota d’água. Não acredito que o Brasil tenha recuperação ou futuro. Não quando seu próprio povo beija a mão dos abutres lhes devoram as vísceras, numa confirmação contundente da afirmação de Pelé. Não quando o Estado está sendo inexoravelmente (e com o aval do povo) atravancado por incompetentes, espertalhões e agradecidos militantes partidários. Não quando um país quase inteiro aplaude um pretenso mito que lambe sofregamente, com amor, as botas dos Chávez, Morales e Fidéis do planeta. A lista é infinda.

E que não se diga que o povo é ignorante. Lula foi reeleito com 60% dos votos, o que engloba uma significativa amostra da população brasileira, em todas as camadas e níveis. Lula não foi, portanto, eleito apenas pela ignorância. Foi eleito pela ganância, pela alienação, pela esperteza, pela credulidade, pela arrogância, pela desinformação.

E por que me importo com isso, já que não tenho mesmo mais fé no Brasil?

Porque tenho filhos e sei que vai piorar, e muito.

Lula não tem capacidade nem vontade de governar o Brasil. A máquina administrativa, tomada de assalto por compadres, repleta de cargos negociados sobre o malcheiroso balcão do suor, lágrimas e sangue pisado do zé povinho, ocupada por saltitantes e messiânicos petistas descompromissados de qualquer coisa que não seja a sua falida e falaciosa ideologia (além da graninha da aposentadoria, claro), infectada com a incompetência que já atravessou a linha da criminalidade (veja-se a ANAC), essa máquina vai falhar miseravelmente. Não há como não.

E no futuro, mesmo que tenhamos no Planalto gente mais séria, décadas serão necessárias para expurgar o malfeito, lancetar os tumores, oxigenar o ar viciado, limpar a pústula.

Quando Lula foi eleito pela primeira vez, disse a amigos meus (eleitores dele): “Temo pelo futuro de nossos filhos”. Não queria estar certo, mas estava.

Gostaria de ler, nos anos que aí vem, os editoriais de Roberto Civita. Boa medida será do tempo que um homem de bem leva para levantar dos olhos os argueiros.