O edifício dourado (1)

Rota de fuga

Todos os gregos são humanos.
Sócrates é grego.
Portanto, Sócrates é humano.

O Grego estava impaciente. Sentado entre os últimos, junto ao pronaos, seus olhos traçaram uma linha reta, imaginária, entre o mestre e a grande coluna à sua direita. Depois, num momento em que o orador fez uma pausa para refrescar-se na água da bacia que o servia, o moço virou-se e olhou para fora. Sem focar nada em particular capturou a imagem, fechou os olhos e a reteve na memória. Prolongou a linha que construíra em sua mente momentos antes até parar na grande oliveira. Se andasse na direção dela a coluna o encobriria do olhar agudo do ancião. Em menos de duzentos passos estaria fora do seu alcance, oculto pela curvatura natural da colina.

Enquanto o velho enxugava o rosto na toalha de linho ele colocou-se de pé atrás do mármore e tirou as sandálias. Depois, protegido pela linha que imaginara, começou a caminhar. Seu raciocínio lhe dizia que quanto mais se distanciasse da coluna, menor sua figura ficaria aos olhos do mestre. A coluna, por sua vez, parada como estava, continuaria do mesmo tamanho. Quanto mais longe, mais seguro estaria. Caminhava sobre uma zona cega para quem na cátedra estivesse. Uma zona triangular, isósceles, muito fininha, cujo vértice postava-se nos olhos do mestre e que tinha por base a largura da coluna. Para além da coluna os lados do triângulo projetavam-se ao infinito, ou pelo menos até o horizonte, eqüidistantes da linha gravada em sua mente.

Depois de cem passos, os lados do triângulo já formavam uma senda larga, que lhe permitiu abandonar o andar hígido e recobrar seu andar de quase menino, folgado, displicente. O Grego fez uma pequena prece de agradecimento ao seu triângulo protetor.

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A vento fresco do mar refrescava seu corpo e arejava suas idéias. O chão era áspero e pedregoso, mas seu corpo magro, quase frágil, estava acostumado ao desconforto. De uma bolsa de pano amarrada à cintura da túnica retirou um figo e pôs-se a comer, mas não em silêncio. Gostava de falar seus pensamentos em voz alta. Mesmo com a boca cheia.

— Não está certo. A verdade não pode ser achada dessa forma. Ela não está escondida em meio a uma floresta de falsidades, de modo que eu tenha que demonstrar as falsidades para que o resto, aquilo que eu não consigo destruir com meus raciocínio seja, enfim, a verdade.

O Grego repassou as horas que passara aquela manhã ouvindo, debate após debate, o mestre desmanchando argumentos, exercitando sua habilidade e sua extraordinária oratória para derrubar impiedosamente cada idéia de cada discípulo. E quando os mais jovens calavam-se, por vezes temerosos e desanimados, o próprio ancião lançava uma nova possibilidade, um promissor caminho para a resolução da questão proposta capaz de erguer novamente os ânimos, bafejar os espíritos com a possibilidade de tocar a verdade, de dar-lhes o bálsamo da certeza.

E então, como um soldado que desembainha a espada, ele próprio reduzia a cacos a esperança com a lâmina afiada da razão, numa prestidigitação sem fim.

— E depois – raciocinava – quem me garante que amanhã não surgirá um novo mestre a destruir aquela minha única verdade restante, deixando-me suspenso novamente na ignorância?

Enfiou novamente a mão no embornal e retirou, desta vez, uma cenoura.

— O jeito certo de fazer é outro – mastigou. Temos que encontrar leis, regras que sejam universais e aplicáveis às coisas todas. Que demonstrem tão fortemente a verdade que dela não seja possível ao mortal duvidar.

Um pequeno pássaro desce da oliveira e pousa ao seu lado, cutucando a terra para retirar de lá algum alimento que só ele sabia existir. O Grego mordiscou a cenoura e tomou o pequeno pedaço na mão. Lançou-o com cuidado ao solo, procurando atrair o animal.

— Veja você, meu amigo. Tem penas. E duas pernas como eu. Todos os pássaros que conheço tem penas e duas pernas. Posso dizer que todos os seus irmãos são iguais? Que todos os pássaros tem penas e só dois pés? Eu já vi todos os pássaros que têm para ver? Se eu afirmar que todos os pássaros são iguais a você estarei dizendo a verdade?

O passarinho andou mais um pouco, agora em direção ao mordisco de cenoura. Desconfiado, mas disposto a investigar.

— E se eu voar com você por aí, por todo o mundo que existe contando pássaros, como saberei que não existe um, em algum lugar, talvez noturno, furtivo, habitante de uma caverna, que não tenha penas? Como saber que conferimos todos os pássaros se não sei quantos eles são?

O bicho agora bicava o pequeno naco laranja, na esperança de que, ao fingir-se interessado no discurso do moço, este o deixaria comer em paz e, quem sabe, permitisse até que ele tirasse um pedaço daquele grandão que tinha entre os dentes.

— Não. Tem que existir um jeito de dizer as coisas que me permita generalizar. Uma demonstração tão forte, cabal, sólida, verdadeira, que me permita afirmar que se um bicho é pássaro, então ele tem que ter penas.

O Grego ergueu-se e calçou as sandálias, espantando seu companheiro. Enquanto descia a colina observava o mar e o porto. Os barcos deslizavam lentos, branquinhos sobre o espelho azul do Egeu. E a mente do moço-menino traçava sobre as águas as suas trajetórias, num riscar de linhas que se cruzavam e cruzavam, desenhando belos triângulos que, sem saber ao certo a razão, ele amava.