Cena doméstica

Lucas Ninno / Folha de SP

Noite agradável, chuva e vento depois de uma tarde infernalmente abafada e quente.
Depois do excelente fusili cozido pela Tati e tornado delicioso pelas mãos do chef Reinaldo Ortega, vem aquele momento preguiçoso que sucede todo jantar em família.
Cristina, forçada pela Tatiana a se contentar com uma beberagem turva e esquisita que o fabricante chama de cerveja de trigo (enquanto Tati ficava com as NBA), cochila no sofá. A dona da casa hipnotiza com o barulho familiar e sempre reconfortante da louça sendo lavada (reconfortante não só no sentido figurado, mas também concreto: significa que alguém que não você está fazendo o trabalho sujo). A Bia ajuda e o Ivan desapareceu casa adentro.

E a imprensa compra, sem pensar.

Uma letra a

Reinaldo e eu, ainda à mesa agora limpa, aproveitamos para relaxar jogando conversa fora sobre coisas leves e digestivas que alegram o coração masculino nesses momentos mágicos: política, administração, economia, tecnologia, marketing…
Discordamos quanto à similitude entre a indústria romana de bigas e a moderna indústria automobilística. Defendo que a influencia da tecnologia sobre o negócio dos fabricantes de bigas, seus produtos e o mercado patrício não é diferente do que acontece hoje com relação à GM, seus carros e os usuários da marca. Coisa de doido.
Mas a conversa é profícua. Concordamos em duas coisas.
Primeiro, que o mundo jamais verá uma geladeira conectada á internet, como alguns néscios profetizavam há poucos anos (alguns ainda insistem em afirmar que isso ainda vai acontecer!). Algum leitor é capaz de me dizer uma única utilidade para uma monstruosidade tecnológica dessas pela qual pagaria um mísero Real a maisE a imprensa compra, sem pensar.
Em segundo lugar, que os notáveis de reconhecido saber que estão decidindo o destino da televisão digital no Brasil adoram contar lorotas. Dizem que o novo padrão terá uma extraordinária função social, ao permitir a interatividade entre o distinto público telespectador e o mundo. E a imprensa compra, sem pensar.
Recentemente, em uma boa matéria de capa de Veja, na qual a revista trata do assunto (edição 1.944, 22/2/2006), os autores dizem textualmente: “…será possível interagir com as emissoras com um toque no controle remoto — votar num show de auditório,participar de uma pesquisa, comprar os produtos do intervalo comercial”.
Pergunto eu (já que ninguém pergunta): quando o alegre consumidor apertar o botão do controle remoto, como diabos a rede Globo vai saber que botão o sujeito apertou? Bem, há quatro maneiras. Pode-se usar o próprio cabo da TV a cabo, se o dono da TV for assinante de TV a cabo. Ou então pode-se instalar um elo de rádio entre a residência do cidadão e uma rede. Alguém paga por isso? Pode-se ainda instalar uma antena parabólica no telhado do consumidor para fazer um uplink com o satélite. Essa tecnologia existe e custa mais de um pau por residência. E, finalmente, pode-se usar um modem ligado à própria linha telefônica da vítima para fazer essa comunicação.

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