Nem toda brasileira é bunda

Pois é. Semana da Mulher. Assim mesmo, com M grande, que elas são mais da metade da humanidade. Pensei em fazer uma poesia. Seria bonitinho, escrever alguma coisa enaltecendo as musas. Porque toda mulher é musa de alguém — até mesmo sem saber. Ou então falar das conquistas, da luta, etc. etc. Bobagem. A TV já está cheia de homens e mulheres enaltecendo ou auto-enaltecendo o gênero.

Por isso, o que sobrou foi uma bronca. Uma bronca nas mulheres.
Tenho contato com dezenas de estrangeiros homens, aqui e no exterior. Frequentemente, quando se fala de Brasil, seja onde for, a sensualidade brasileira e, por extensão a mulher brasileira, acaba entrando na conversa. Eu fujo desse tipo de armadilha para não passar vergonha. Porque acabamos sendo vítimas de ilações e sugestões sutis que podem ser traduzidas, de modo curto e grosso, como habitantes felizardos de um país onde as mulheres são mais do que bonitas e sensuais: nossas mulheres são fáceis. Já passei pelo constrangimento de ouvir — quase literalmente — que as mulheres brasileiras são — com perdão à sensibilidade das senhoras presentes — putas.

Não me incomodaria tanto se essa visão fosse fruto da libido reprimida de um europeu grosseiro e machista. Mas é difícil defender nossas mulheres quando vivemos em um país em que as próprias mulheres se calam diante de situações degradantes.

Recentemente, o Presidente da República recebeu no Rio de Janeiro um punhado de chefes de estado sul-americanos. Era uma reunião do Mercosul. Uma foto foi publicada em todos os jornais e revistas, que exibia uma moça de bunda de fora rebolando emplumada, enquando Lula e Chavez olhavam, embevecidos. O presidente, particularmente, parecia muito satisfeito de mostrar ao colega ditador o grande produto nacional: a mulher pelada brasileira.

Até aí, compreende-se. Lula e Itamar, para citar apenas dois exemplos, não tem sensibilidade suficiente para entender a sutileza do respeito ao sexo oposto.
O que me causa espanto — e por isso minha bronca — é a passividade com que a mulher brasileira aceita esse estado de coisas. Não vi nenhuma voz feminina, de qualquer segmento da sociedade, protestar contra o flagrante desrespeito. Não ouvi protesto algum de qualquer feminista histórica deste país, como Rose Marie Muraro, Luiza Erundina, Nilza Iracy, Ruth de Souza ou qualquer outra.

Está na hora de vocês tomarem as rédeas do protesto. Escrevi há pouco no blog da Amanda Arthur (Sarau Balzac) um comentário, no qual expresso minha opinião de que minorias são formadas por aqueles que se encolhem. Mulheres não são minoria, pelo contrário.

Gostaria de ver um movimento, capitaneado por mulheres, contra o aviltamento da mulher brasileira, combatendo a venda de sua imagem de meras portadoras de sexualidade exacerbada. Sensualidade vocês têm de sobra, mas por favor, aliem-se aos homens que entendem essa sensualidade como elemento essencial de sua sensibilidade, de sua liberdade como indivíduos, e encontrarão apoio e ativa participação.

Desculpem, moças, o desabafo nesta data. Mas parem com essa conversa de que mulher inteligente, profissionalmente resolvida e sexualmente dona de seu nariz assusta os homens. Os homens estão mudando — e mudando depressa. É hora de considera-los parceiros e sócios nas causas femininas.

Será que juntos não podemos restaurar a imagem da mulher brasileira pelo que ela realmente é: uma mulher como qualquer outra no mundo, só que muito, muito mais interessante?