Muitas palavras

(Soneto VI)

Porque rasgaste a minha poesia?
Que mal fizeram a ti meus pobres versos,
de que defeito a rima padecia,
para morrer em tua ira imersos?

Se numa folha de papel estavam
minhas palavras, antes todas juntas,
e tão quentinhas a sorrir cantavam
alegremente o meu amor e juras,

as separaste tu, num gesto ingrato,
sem perceber que assim as devolvia
sem vida e cor, ao frio do dicionário.

Agora explica a elas, anuncia,
redime-te do gesto incendiário:
Porque rasgaste a minha poesia?