Meu robô

Esta postagem é três-em-um. A primeira parte é leve e espero que vocês leiam. A segunda é só para quem estiver com disposição para pensar um pouco. A terceira é só para loucos.


Sou fã incondicional de Isaac Asimov desde criança. Mais do que qualquer outra obra literária, a trilogia original de Foundation marcou meu espírito, minhas idéias e ideais, meu modo de pensar para o resto da vida. Há quem prefira Arthur Schopenhauer. Que pena.

Há um conto de Asimov que é um de meus favoritos. Vou resumí-lo para vocês. Chama-se Sensação de Poder.

É sobre um homem que encontra velhos cadernos de um antepassado, em um tempo em que todos os cálculos era feitos por máquinas. Nesses escritos havia claras explicações de como realizar desde as quatro operações até a solução de algumas expressões algébricas, e além. Eventualmente os militares apropriaram-se do hobby do homem, e do próprio homem.

Um general, espécie de padrinho do sujeito, apresentou ao Presidente a “nova” técnica, argumentando que, no futuro, as naves de combate poderiam ser pilotadas por humanos capazes de fazer cálculos. Uma notável vantagem sobre qualquer inimigo! Explicou que depois de três anos desvendando a “grafítica” já eram capazes de extrair raízes quadradas simples (para assombro dos ouvintes incrédulos). E que esperavam em breve mergulhar nos mistérios das raízes cúbicas. E quem sabe o que lhes reservaria o futuro? Quiçá cálculos diferenciais! O céu era o limite…

Um belo dia o descobridor da grafítica comete suicídio, desgostoso do bélico destino impresso pelo governo à sua arte. Mas o projeto era já avançado, enorme, importante, consumidor de milhões, e secreto.

O general, junto com muitas autoridades de alto coturno, estava presente ao enterro. Enquanto descia o caixão, ele pensou:

— Nove vezes sete são sessenta e três. E não preciso de uma maldita calculadora para mo dizê-lo! E ficou surpreso com a sensação de poder que isso lhe conferia.


Essa estória me veio à cabeça lendo os comentários da minha postagem anterior. E me deu vontade de compartilhar com meus amigos um pouco do que existe por trás da Internet que a imensa maioria não vê.

Mergulhar na Internet — em suas entranhas quero dizer — é uma aventura única. É lá, por trás de nossos browsers, onde a magica se realiza, que se pode sentir de verdade onde está a democracia, a universalidade, a força desse animal criado pela nossa civilização. Gostaria tanto de levar vocês comigo! Inteligentes — argutos — que são, por certo saberiam apreciar em toda grandeza as implicações sociais, morais, econômicas e, porque não dizer, a beleza dessa teia.

Fala-se muito da revolução visível da Internet. Da propagação e democratização da informação e do conhecimento. Da oportunidade de expressão dada a cada um de nós, nos mais escondidos recantos da Terra. Mas por trás de tudo isso há fenômenos acontecendo que empalidecem — por qualquer medida que se queira tomar — a vistosa camada visível da web.

Existe um verdadeiro batalhão de pessoas, muitas não remuneradas para isso, trabalhando incessantemente para romper todas as barreiras e permitir, cada vez mais, que esse território invisível ganhe em força e poder. Não um poder centralizado, mas um poder que está ao alcance de qualquer pessoa que se disponha a dar seus passos no território.

As novas tecnologias, linguagens e construções virtuais permitem-nos construir pontes que unem, e unirão muito mais livremente no futuro, as ilhas desse universo.


(Daqui em diante, só para os mais pacientes ou curiosos, rsrsrsrsrs)

O pequenino truque que implementei em Assertiva é — acreditem — incrivelmente simples de fazer. Pode ser instalado em qualquer de nossos blogs. E no entanto envolve uma dúzia de recentes tecnologias que atendem pelo nome de RSS, Atom, XML, DOM, Ajax, JavaScript , XHTML e mais algumas.

Todas abertas, todas livres, todas disponíveis para quem se dispuser conhecê-las e usá-las. Todas presentes no seu computador (sim, agora mesmo, enquanto você lê isto), ou nos computadores do site por onde você navega.

Se você quiser vê-las em ação, e levantar a ponta do véu por trás do cabeçalho do Assertiva, abra uma nova janela do seu browser e digite (ou recorte e cole):

http://nomedoblog.blogspot.com/feeds/posts/default?max-results=5

No lugar de nomedoblog coloque qualquer um.

Até aqui, nada demais. Parece só um jeito diferente de chamar um blog, não é?
Agora clique em Exibir e depois em Código Fonte.

Na sopa de letrinhas que vai aparecer, — e se vocês tiver saco, é claro — identificará tags como e . (Dica: vá até o final e olhe de trás pra frente: há um bem no finzinho). Entre dois tags entry está uma postagem completa. Se for curioso, vai notar que dentro da postagem há tags para o nome do autor, data da publicação (com hora e tudo), data da última atualização, a imagem (se houver) e seu endereço, e mais algumas coisinhas.

Quer mais? Substitua posts por comments e veja o que acontece. Olhe o código fonte também.

Mais ainda? Substitua o 5 por um número grande (300 por exemplo), e vai receber todos os posts do blog. Eles não vão aparecer todos na tela do navegador, mas se você — novamente — olhar o código fonte, verá que eles estão todos lá, emboram não estejam exibidos.

Por esse meio — e passando seu logon e senha na linha de comando de modo apropriado — você pode ter acesso ao modelo e todas as configurações do seu blog. Inclusive as datas das alterações que você fez!

Estou preparando (vai demorar um bocadinho ainda) um utilitário para buscar todas as postagens de um blog — qualquer blog — e gerar arquivos PDF de tudo, um para cada post, de uma só vez e automaticamente. Assim que ficar pronto passo para vocês fazerem belos e organizados backups. Ele gerará também as postagens no formato .dbf, para quem quiser consultar o conteúdo através de consultas em Access. Essa ferramenta ficará no servidor do Assertiva.

Nada disso é exclusividade do Blogger. Praticamente todo site decente hoje em dia dispõe de um endereço que, se provocado, envia o seu conteúdo para você. Basta saber o endereço “provocador” (tecnicamente chamado de feed URL). Esses endereços são públicos. Outra hora explico como obtê-los.

Em Assertiva, cada vez que você abre a página principal, um autômato residente em São Paulo aciona um robozinho virtual (no Google Developers em Minneapolis) que percorre o interior de cada blog (educadamente e pedindo licença), captura o feed das quatro últimas postagens (no Google Blogger em San Francisco), entrega para o servidor de novo em São Paulo, que interpreta aquele emaranhado de tags extraindo a informação, que devolve para San Francisco, que monta a página que você está vendo.

Tudo isso apenas porque eu programei uma dúzia de linhas em uma linguagem exótica e elegante, com meus próprios dedinhos, em minha máquina perdida no meio do mato em Vargem Grande Paulista. Eu não preciso de um mágico ao meu lado para fazer isso. Mas fico extasiado com a sensação de poder que isso me confere.