Lig-lig-lé

Ouço falar da China e dos chineses por toda parte. Revistas de negócios, revistas de informação, jornais, livros, sites. Ensaios, previsões catastróficas, entrevistas, impressões de viagem. Admiração, temor, reverência. Loas mil à sabedoria milenar, à profundíssima filosofia, à chatíssima paciência, à medicina milagrosa, à rica história.

Eu, espírito de porco e pensador independente, fico cá contorcendo os meus neurônios para entrar na onda, mas não consigo.
Então, deixo aqui algumas perguntas que minha limitada capacidade de seguir a manada me impõe fazer.

Dê uma olhada ao redor e responda: de tudo o que você está vendo, que coisas úteis contém alguma contribuição da cultura chinesa? Faça o mesmo lendo uma revista ou jornal. Faça esse exercício por uma semana. Se você conseguir aumentar minha lista, me avise: terei prazer em completá-la. Mas já vou avisando: merdeleco fabricado na China não vale. Qualquer que seja ele é fruto da tecnologia e da ciência ocidentais.

Minha lista atualmente inclui a pólvora, o miojo, os pauzinhos de comer, a acupuntura e as pipas.

Toda a ciência e tecnologia de que o mundo dispõe para funcionar e compreender o universo foi montada sem a contribuição de uma única personalidade chinesa, apesar dos mais de cinco mil anos de história. Por que isso, se os chineses já eram uma civilização pujante e organizada quando a Europa exibia apenas bandos de bárbaros brigando por um joelho de porco?

O conhecimento ocidental foi erigido magistralmente por indivíduos notáveis, sem nenhuma contribuição oriental, mesmo depois que Marco Pólo andou lá por aquelas bandas contrabandeando tempero para salada.

Você pode dividir a humanidade em grupos, com destaque para a nossa civilização judaico-cristã ocidental de um lado, e a oriental de outro. E argumentar que os dois grupos desenvolveram-se independentemente, de modo que não dá mesmo pra achar um sujeito chamado Ho Chi Ling entre Galileu e Newton. É verdade. Mas também é verdade que, do lado de lá do mundo, tudo o que os caras usam e sabem hoje vem deste lado de cá do quintal. Pergunte a qualquer cientista ou engenheiro chinês de onde vêm a química, a física, a matemática, a biologia e tudo o mais que usam para trabalhar. Lhufas. Só tem nego de olho redondo nessa história.

De um século para cá, os orientais têm dado contribuições importantes para o avanço dessas coisas todas. E olha que são, em sua esmagadora maioria, japoneses. Mas eu pergunto: por que foi preciso que o oriente se embebesse com a sabedoria ocidental para poder fazê-lo? Que diabos faziam eles nos milhares de anos anteriores aos contatos com o conhecimento ocidental?

Antes de reverenciar a sabedoria oriental, é preciso antes reconhecer a grandiosidade de nossa própria sabedoria ocidental.

E deixa eu parar por aqui, porque minha máquina está pifando. A ventoinha — a quarta que compro este ano — não está dando conta de refrigerar a fonte de alimentação. Preciso achar uma que não seja fabricada na China.

Ilustração: A palavra Sabedoria, em caracteres chineses