Lembranças de chão de fábrica (1)

O mela-eixo entrou esbaforido na minha sala.

— Seu Ernesto! Corre, faz favor! O Edgar sofreu um acidente!

Todo lubrificador, em qualquer fábrica do país, é conhecido como mela-eixo. Tanto que não lembro — se é que um dia soube — o nome do velhinho.

— Calma, homem. Que acidente?

— O esmeril estourou na cara dele. Tá todo machucado, acho que furou o olho…

— Já avisou o Moretti?

— Num tá aí, Seu Ernesto. E o Lourenço tá almoçando.

Apanhei o capacete e saí porta afora com o homem no meu encalço. Tirei do bolso a chave do Fuscão.

— Vai lá no estacionamento e pega o meu carro. É o fusca verde. Leva pra mim lá na oficina.

A cena era típica de acidentes de trabalho em indústria, onde todo mundo é bem treinado em primeiros socorros, com horas de palestras na CIPA nas costas. Uma bagunça. A vítima deitada no chão, a maca ao lado. Meia dúzia de homens discutindo como pegar o acidentado sem desgraçar a cervical, enquanto dois já levantavam os pés do coitado — desgraçando a lombar. Só o velho Mirtho, caldeireiro-chefe parecia fazer alguma coisa sensata: pitava seu cigarrinho de palha sentado na bancada, apreciando o fuzuê enquanto o chefe não chegava. Qualquer chefe, mesmo que terceiro na linha de comando.

— Pára, pára tudo!

A peãozada abriu caminho. Ajoelhei-me ao lado do Edgar. O rosto do homem parecia uma peneira de tanto furo. Sangue pra chuchu. Pelo menos cinqüenta mililitros. Pergunto ao mecânico mais próximo:

— O que aconteceu?

Edgar agarra meu braço.

— ..meril! — os olhos do cara arregalaram-se — ..udeu tudo…

— Eu acho que a pedra do esmeril estourou e ele se f…. todo. — esclareceu o perguntado.

— Ele caiu? Bateu em alguma coisa?

— Não senhor. Eu só escutei o estouro. Voou estilhaço pra todo lado. Aí eu vi ele andar de costas e ir sentando no chão devagarinho.

Mela-eixo chega como meu carro, de ré, colocando-o bem pertinho.

— Então não deve ter quebrado nada. Me ajuda aqui.

Levantamos o Edgar pelos sovacos mesmo. Embora trêmulo, ele firmou-se razoavelmente bem. Ajudamo-lo a sentar no banco do fuscão, que alguém já tinha reclinado (os bancos dos meus fuscas sempre dispuseram de ajuste de inclinação ampla, por razões que não vem ao caso nesta história).

Arranquei em direção à Santa Casa de Santos.

No caminho, o choque do Edgar foi-se transmutando em raiva. Peguei a toalha de rosto dobradinha que levava no porta-luvas (para emergências — nunca se sabe) e entreguei a ele. O mecânico não se conformava.

— …quela …erda de rebolo. — e cuspiu um dente pela janela — … borundum, mas compraram aquela …erda de …ebolo — cuspiu outro dente.

Entre o Jóquei Club e a Praça dos Andradas ele já tinha lançado fora metade da dentição. Tudo sangrando, um horror.

Chegamos na emergência, e lá se foi o Edgar de maca com um enfermeiro. Sentei e esperei. Aquilo ia demorar, ah se ia. Fiquei arrepiado só de pensar no estrago em sua boca. Os pontos que estava levando nas gengivas. E, no mínimo, o médico devia estar arrancando o que restara de cada toco de dente. Coitado.

Hora depois veio o médico.

— Acompanhante de Edgar da Silva!

Apresentei-me.

— Foi você quem trouxe o Seu Edgar?

— Foi. Como é que ele está?

— Muito bem, muito bem. Já vai sair, e você poderá levá-lo embora. Dê uma paradinha na farmácia para comprar os remédios. A receita está com ele.

— Então não foi nada grave, doutor?

O médico pensou um pouquinho antes de responder.

— Olha, ele teve muita sorte. Um pedaço de ferro atingiu a boca e poderia ter perfurado o palato e aí… só Deus sabe onde teria ido parar. Até no cérebro. Se não fosse pela dentadura…

Aí o Edgar apareceu. Rosto todo remendado. Me deu um sorriso sem graça. Amarelo em baixo, e rosadinho, rosadinho em cima.