Gente Humilde

Brinca-se muito com essa coisa da mortadela.

Quase sempre criticando quem a usa como moeda de troca. Muito bom. Mas também frequentemente escarnecendo de quem a come.

O fato é que essas imagens me tocam de maneira particular.

Não vejo adversários. Não consigo. Só vejo pessoas humildes vitimadas pela desonestidade, pela falta de caráter, pela malandra sede de poder dos pelegos, dos gatos gordos do regime, dos que se escondem por trás de uma ideologia em que nem mesmo eles crêem para manter suas sinecuras, seus cargos, suas mancheias de dinheiro público subtraído – triste ironia – dos bolsos mesmo dos comensais do pão com magro recheio.

A pior escravidão é a daquele que não reconhece, no seu senhor, o seu algoz.

Critiquemos os criminosos. Mas não exponhamos à execração as vítimas. Ou queremos um país melhor para eles tanto quanto para nossos filhos ou a contenda não vale a pena.

Será que queremos combater essa gente? Ou preferimos trazê-las para um tempo e um lugar onde uma educação real, de qualidade, isenta de ideologias, lhes permita decidir por si mesmas seu destino?

Não desvie os olhos. Olhe bem os semblantes e as expressões. Não há malícia. Não há raiva. Não há desafio. Não há – oxalá houvesse! – nem mesmo combatividade. Apenas a ingênua – às vezes até a ingênua malandrice – de quem aprecia um bom petisco em um piquenique de família.

Dê-se a essa gente uma educação honesta e a sorverão, e nos surpreenderão com o desabrochar de sua capacidade para o trabalho intelectual, com suas contribuições para as ciências, para as artes e para o bem-estar de toda a sociedade. Até porque essa gente não seria condescendente com urubus de bienal.

Mais vale a mortadela na boca dos inocentes do que o Barilla ao pesto na mesa de pseudo intelectuais desonestos.

Pensemos.