Frustração

Todos nós temos a tendência de querer que as pessoas gostem das coisas que gostamos. Que as pessoas entendam essas coisas. Não precisam entender dessas coisas. Só entender a coisa.

Está bem. Dou um exemplo. Vejam o Tapadinhas. Ele não espera que todos nós, seus amigos, sejam entendidos em pintura. Que conheçamos a técnica ou saibamos a diferença entre uma obra realista ou romântica. Mas ele por certo fica satisfeito com o fato da maioria das pessoas entenderem para que serve a arte e seu lugar na sociedade e na história.

Do mesmo modo o Flávio com a propaganda. Seus amigos podem não saber do imenso conjunto de fundamentos necessários para fazer uma boa peça publicitária funcionar. Mas com certeza ele pode explicar facilmente o espírito da coisa, de modo a entusiasmar o interlocutor e levá-lo a olhar a propaganda com outros olhos.

A pintura, como a publicidade, tem segredos que seus atores frequentemente nos desvendam e que entretêm e encantam. Outro dia ouvi um economista dizer que a coisa mais revolucionária surgida com o advento da moeda como elemento de troca foi a de permitir que as pessoas se concentrassem no que realmente sabem e querem fazer. Com a moeda, as pessoas puderam comprar de outrem tudo aquilo – produtos ou serviços – que elas mesmas não sabiam, não podiam, não queriam ou não tinham tempo de fazer. E dedicar-se ao que realmente permitia seu talento. O alcance disso para a civilização é fácil de avaliar com um pouquinho só de exercício.

No mundo em que vivo profissionalmente há muita coisa que as pessoas podem apreender (não aprender) com facilidade. Coisas que fazem parte do seu dia-a-dia e que não sabem bem como funcionam. Mas que qualquer um com um pouco de paciência e didática pode explicar. E entusiasmar. O espaço se curva mesmo? Como? Por quê? E o que é mesmo essa tal de nanotecnologia? Para que serve?

Mas eu tenho uma frustração com a matemática. Gosto muito da matemática. Não estou dizendo que sou bom em matemática. Apenas que a compreendo e entendo o seu alcance, sua natureza, seus mecanismos e até mesmo suas fraquezas. Mas não consigo passar isso para as outras pessoas. Não que eu não possa explicar, ou que elas não possam entender. Acontece que simplesmente as pessoas não estão interessadas.

Tenho pensado muito no ensino da matemática tal como é feito. É errado? É sim, a julgar pelos resultados. É desesperador ver as pessoas crescerem, tornarem-se adultas fugindo da matemática. Ou mesmo com aversão a ela. Elas pensam que a matemática é aquela coisa cheia de equações e regras para serem decoradas. Uma chatice que não leva a nada.

A matemática nasceu com o pensamento humano e com ele coexiste. Não é a obra mais monumental da humanidade. É apenas uma linguagem, uma ferramenta. Um guia seguro para entender a grandiosa Mãe Natureza ou para orientar as coisas que fazemos com nosso dinheiro. Obras monumentais são as sinfonias de Beethoven, as teorias da Relatividade e da Evolução, as pirâmides do Egito e a conquista da Lua. Todas elas, sem exceção, prenhes de matemática.

Mas o que é a matemática afinal? Você sabe como funciona? Sabe como trabalham os matemáticos? Conhece a sua história?

Em outras palavras: você tem intimidade com a matemática?

Há um modo pelo qual eu gostaria que as pessoas se aproximassem da matemática, sem precisar aprender todas aquelas equações e contas e cálculos. Acredito que existe uma forma de fazer as pessoas se aproximarem dela, gostarem dela, divertirem-se com ela.

Tanto acho que vou tentar. Vou tentar, nas próximas postagens, explicar o espírito da matemática, sua história, seus meandros, seus mecanismos. Sem ensinar matemática, evidentemente.

Quem sabe pode até dar certo, e alguém gostar.