Foguetório

Os investigadores franceses do BEA (Bureau d’Enquêtes et d’Analyses pour la sécurité de l’aviation civile) divulgaram um relatório parcial do acidente do AF447 hoje. São 128 páginas se contados os anexos.

Os especialistas reclamaram dizendo que é muito cedo para qualquer conclusão. E é mesmo.

Curioso que sou das coisas da aviação, li o documento de cabo a rabo.

É ótimo para clarear as coisas que a gente leu – e continua lendo – nos jornais. Há a transcrição das conversas entre a aeronave e os centros de controle, por exemplo. Há uma análise criteriosa da meteorologia. E mapas completos da localização dos destroços e dos corpos.

Há também fotografias não publicadas pela imprensa (ainda) de partes do avião que são bastante esclarecedoras de algumas coisinhas. Como, por exemplo, porque os franceses estão dizendo que o avião chegou inteiro ao mar, batendo de barriga.

Mas nada, absolutamente nada que não pudesse ser escrito por um surfista angolano apaixonado pela aviação e com acesso à internet.

Nota-se, no entanto, uma ponta de picuinha entre autoridades brasileiras e francesas que não ajudam em nada, e ainda é aumentada pela imprensa.

O chefe das investigações, um tal Monsieu Bouillard, declarou em entrevista (e os jornalistas fizeram um estardalhaço) que o plano de vôo não foi passado aos senegaleses pelos brasileiros. O relatório não permite essa afirmação. E depois, é como atribuir à falta do certificado de propriedade no porta luvas o status de fator contribuinte num acidente de carro.

O relatório afirma também que o plano de vôo gerado pela Aeronáutica e pela Air France diferem. Mas em tão completo relatório há somente cópia do documento da Air France, não permitindo a comparação. Descuido?

As buscas são descritas em detalhes mas, se lido por um alienígena, pensará ele que todo o esforço foi francês. Com direito a fotos das bravas embarcações.

Por fim, Monsieu Bouillard declara em sua entrevista que vai investigar por que tantas horas se passaram antes que o alarme fosse dado. Ora, Monsieu. Parece que o senhor não leu o detalhadíssimo relatório que o seu próprio pessoal escreveu. Demorou por que a Air France e outras entidades francesas envolvidas no ping-pong de informações entre Dacar, Lisboa, Madri e Paris naquela madrugada só avisou as autoridades quando se convenceu que o avião havia desaparecido mesmo.

Conclusão: o documento f-cp090601e é tão somente uma peça de exibição. Mas recheada de informações, inclusive para os jornalistas. Se estes entendessem alguma coisa de aviação.