Fernanda e o helicóptero

Fernandinha era uma portuguesa legítima, nascida em Lisboa e trazida ainda criança para o Brasil. Não era, digamos, bela, mas pernuda e de bons peitos, chamava a atenção da rapaziada. Tanto mais que vestia-se amiúde com poucos panos.

Rapariga inteligente e bastante liberal, morava quase sozinha — a mãe trabalhava até tarde da noite no bar que possuía — para gáudio do namorado de plantão. Que por acaso, naquele verão de 73, era eu mesmo.

Tínhamos um relacionamento tranqüilo. Ditadura correndo solta, dáva-mos vazão aos baixos instintos ao som de O Milagre dos Peixes, LP mutilado do Milton Nascimento que, sem as letras apagadas pela censura, eu achava muito chato. Mas que embalaram bem nossas 9 ½ semanas. Curtíamos cinema cabeça, como Blow-up e O Outro, cachorro quente dentro do Fusca no José Menino e corrida de submarinos no mirante da Ilha Porchat.

Por essa época eu defendia o leite das crianças vindouras montando fábricas de adubo, e reforçava o orçamento tirando fotografias. Foi o Jorge Lemos que me arrumou uma boquinha para fotografar a construção da Rodovia dos Imigrantes. Minha Ricoh — a saudosa Amelinha — registrou toda a construção.

Foi assim que, num sábado, estava eu sobre o viaduto inacabado, vendo a equipe do Jean Manzon preparando uma filmagem que faria para o governo do Estado. Fim de tarde, eu já sem nenhum rolo de filme virgem, apreciava o movimento do pessoal mexendo no helicóptero para o vôo panorâmico que fariam, no dia seguinte, o cinegrafista e o próprio Jean.

Em benefício dos leitores mais jovens, registro que Jean Manzon foi um dos dois mestres do documentário brasileiro. O outro foi Primo Carbonari. Naquela época, toda bilheteria de cinema tinha uma plaquinha com os dizeres: Acompanha complemento nacional. O tal “complemento” era o documentário do Jean ou do Primo, uma espécie de Jornal Nacional semanal. Desnecessário dizer que a reserva de mercado fez a fortuna dos dois.

Como todo artista, o francês era temperamental. O documentário tinha storyboard e tudo, e incluía algumas tomadas ousadas da estrada, da floresta, das cachoeiras, da serra do mar. Mas Jean queria um movimento de câmera que a bolha da cabine do helicóptero, um velho Bell, impedia. A solução foi pedir aos peões de uma empreiteira que montassem uma plataforma, um soalho de madeira, preso por grampos aos patins da aeronave. Na frente da plataforma haviam adaptado o cabeçote do tripé da câmera, onde seria montada uma lendária Arriflex de 35mm.

Pretendia o diretor que o cinegrafista voasse deitado sobre a plataforma, entre os patins e a barriga do helicóptero, preso por arreios improvisados com cintos de segurança. Como garantia adicional, o infeliz usaria um cinturão, no qual um cabo de segurança preso na fuselagem impediria sua queda, se tudo o mais falhasse. Para se comunicar com o Jean — que voaria confortavelmente instalado na cabine — um headset com longa extensão funcionaria como intercomunicador. Uma pérola da improvisação tupiniquim, mas muito segura.

Aí chega o cinegrafista, veterano de muitos documentários, olha praquilo tudo, balança a cabeça e declara: “Nesse troço eu não ando não”.

Jean Manzon fez de tudo. Lembrou quem era que mandava ali, que o homem tinha filhos pra sustentar, que cinegrafistas de primeira linha fariam fila para entrar no seu lugar. Mudou de tom e prometeu uma gorda gratificação. Debalde. O homem sofria, pura e simplesmente, de acrofobia.

Impasse. Jorge Lemos, cujo esporte predileto quando não está envolvido em alguma cruzada cívica é colocar este que vos fala em alguma fria, foi quem apresentou a solução: “O Ernesto vai”. Assim mesmo, desse jeito, sem consulta prévia aos interessados. O cara conhece seu eleitorado. Afinal, eu era fissurado por qualquer coisa que voasse, e ainda daria um pedaço da orelha para por as mãos em uma legítima Arriflex.

Fiz alguma graça para valorizar o passe, expliquei que nunca havia pilotado uma 35mm, e tal. O francês acabou com a discussão: “Fem cá, Errnesto. Olha aqui. Qualquer um pode mexerrr nesta porrra”. E pôs-se a mostrar como operar a Arriflex. “Qualquerr coisa, é só facerr o que eu mandarr”. E assim acabou meu curso profissionalizante de operador de câmera de cinema.

Desço a serra excitado com a idéia. Tomo banho correndo, pego o Fuscão e me mando pro apartamento da Fernandinha. Louco pra contar a novidade. Imagina, logo eu. Cinegrafista do famoso Jean Manzon. Voando pendurado na barriga de um Bell. O herói da namorada.

Não só a portuguesa não gostou da idéia como ficou muito brava. Me chamou de louco. Maluquice tinha limite. Um helicóptero, Deus me livre! E se eu caísse daquela coisa? O que seria dela? E onde ficavam os seus sentimentos?? Egoísta!

Finalmente, o argumento final: era o vôo ou ela.

Foi um belo vôo. Muito emocionante.

Quanto à Fernandinha, mulher à busca de um homem pacato e de profissão segura, optou por um partido de mister menos arriscado. Manteve contato com minha mãe até há poucos anos, através de quem mandava lembranças e notícias. Casou-se com um engenheiro de petróleo inglês. Eventualmente, o sujeito arrastou-a para o Iraque, onde ainda estavam, até onde sei, quando Sadan Hussein declarou guerra ao Irã. Marido pacato é isso aí.