Eu vou entortar você

É uma explicação velha, mas desta vez eu vou levá-la (e a você também) um pouquinho mais longe.

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Você gosta de ler um bom livro à noite, sentado(a) na sua poltrona predileta. Você sempre faz isso lá na sua casa.

Só que desta vez você não está em casa.

Você está no espaço.

Aceitou a viagem com uma condição: sentir-se em casa. Então a TIA (Transportes Interplanetários Assertiva) concordou em decorar esta parte da nave exatamente como seu quarto. A cama, a cômoda, o poster do Elvis na parede, tudo.

Mas ainda assim ficou faltando alguma coisa. Uma coisa muito importante: a gravidade. É uma chateação ter que amarrar-se à poltrona para não sair flutuando até bater com a cabeça na lâmpada do teto. Ou tomar o chá nessa mamadeira hi-tech e não na chávena que você ganhou da vovó no seu casamento.

Definitivamente você quer a gravidade de volta.

Liga pro Albert E. — aquele seu amigo nerd. Explica o problema.

— Só tem um jeito – ele diz. Liga o foquete que fica na direção do seu rabo quando está na poltrona. Aquele bem abaixo de você. Vai acelerando devagarinho até sentir-se confortável, e aí deixa como está. Deve funcionar.

Você agradece e faz direitinho como ele mandou. Pega o controle remoto, muda o botão de DVD para SHIP e começa a acelerar devagarinho. No começo sente só uma leve pressão do seu traseiro contra o couro da poltrona. Ou vice-versa. Gostoso, mas ainda não é o bastante. Acelera, acelera… pronto! Agora está bom. Exatamente como lá em casa.

Solta o cinto de segurança e olha o mostrador do controle remoto. Lá está escrito 9,8 metros por segundo ao quadrado. Gozado. Você já viu esse número em algum lugar. Numa aula do quê mesmo? Ah, deixa pra lá.

Começa a ler, mas não vai muito longe na página.

Fecha o livro e começa a pensar. “Esse Albert é o cara. Como é que ele sabia? Eu liguei o motor, que começou a me empurrar de baixo para cima cada vez mais depressa. E eu comecei a grudar na poltrona como… como num jato quando começa a correr para decolar. A sensação é igualzinha”. Aí você dá um sorriso: “Mas é claro! Que truquezinho barato esse do Albert…”

Liga de novo para o amigo.

— Descobri como você fez!

— Eu fiz o que?

— Com que eu tivesse a sensação de gravidade.

— Sensação coisa nenhuma. Você pode fazer tudo o que faz na sua casa aqui na Terra. Mais ainda. Você pode fazer qualquer coisa que dependa da gravidade que vai funcionar.

— Como quê?

— Como pesar-se, tomar banho de chuveiro ou plantar um limoeiro. Ele vai crescer para cima como todo limoeiro. Pode até comer uma banana, jogar a casca no chão e depois escorregar nela. Mas é melhor ter um band-aid à mão.

— Você quer dizer que isto é gravidade?

Isso é o que eu batizei de Pincípio da Equivalência. Aceleração e gravidade são equivalentes. Mas ainda vou provar que são a mesma coisa. Você está andando cada vez mais depressa e depressa. A cada segundo você viaja 9,8 metros por segundo mais rápido. Que é a aceleração da gravidade terrestre.

— Agora eu sei onde tinha escutado esse número…

— O quê?

— Nada não. Depois a gente se fala.

Bate o telefone. Resolvida a questão você volta ao livro e, desta vez, lê muito e com gosto.

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Acorda e se espreguiça. Antes não o fizesse. Seu braço bate com força no teto e você voa até a dar com o ossinho do fim da espinha na quina do guarda-roupas. Dói pra diabo, além de tirar o fôlego. Quando você consegue falar…

— Aaaaaaiiiiiiiiii!!!!!!!!!!!!!!

O livro está boiando à sua frente. Gravidade que é bom, neca. O resto só continua no lugar porquê foi cuidadosamente parafusado pelo pessoal da TIA.

Tira o telefone do bolso outra vez.

— Albeeeeeert!

— Quem?? Ah, é você de novo? Sabe que horas são aqui?

— E você sabe o que está acontecendo aqui?

— Nem imagino.

— A tal da gravidade sumiu!

— É claro que sumiu.

— E você não me disse nada…

— Eu ia dizer, mas você desligou.

— E o que deu errado?

— Nada deu errado, ora. Dá uma olhada na velocidade.

Você pega o controle remoto e aperta SPEED.

— Trezentos mil… puta merda!

— Trezentos mil quilômetros por segundo. Legal né?

— Legal o cacete! Bati a bunda. Está doendo até agora. E como eu faço pra consertar isso?

— Isso o quê?

— A gravidade, Albert. Preciso acelerar de novo.

— Não pode.

— Não?

— Não. De tanto andar mais e mais depressa você chegou à velocidade da luz. Não dá pra passar disso. Nada pode passar da velocidade da luz. Logo, não dá para acelerar mais. Não para a frente pelo menos.

— Então não dá pra ter minha gravidade de volta?

— Eu não disse isso. Mas vai dar um pouquinho mais de trabalho desta vez.

— Qualquer coisa. Não quero fazer xixi de novo naquele negócio. Quero usar o banheiro como sempre fiz.

— Bom. Você ligou o motor abaixo dos seus pés, certo?

— Certo.

— Então você está viajando em linha reta, na direção do seu teto. Em outras palavra: o teto é a “frente” e o chão é “atrás” com relação ao movimento. Me acompanha?

— Não sou uma paca. Claro que acompanho.

— Então vire a nave de modo que ela viaje de lado agora.

— Você quer que eu ande de lado, como um caranguejo?

— Assim mesmo. Faça isso.

Você aperta ROTATE e hesita.

— Pra que lado?

— Tanto faz. Escolha um.

Você pressiona RIGHT. Observa mostrador. Uma linha vermelha indica a trajetória da nave. No centro, a própria nave alinhada com o risco no sentido do seu comprimento. Então ela começa a mover-se devagar, até ficar completamente atravessada com relação à linha na tela. STOP.

— Pronto. Já virei.

— Então é melhor segurar-se em alguma coisa.

De fato, você começa a sentir seu próprio peso outra vez. Seus pés tocam o chão e logo você está andando como bípede que é.

— Funcionou! Mas como é que…

— Do mesmo jeito que antes. O foguete continua ligado, Certo?

— Certo.

— Então você voltou a acelerar, só que desta vez para o lado.

— Ahnnnn… é o mesmo truque de outro jeito. É como quando o Reinaldo faz uma curva na Via Anchieta. O ombro da gente gruda na porta de tão rápido que ele vira.

— Isso mesmo. E se você estivesse de comprido no banco de trás com os pés na porta você teria que fazer força para o seu joelho não dobrar, como se estivesse de pé. Pense que você continua acelerando, só que dessa vez para o lado.

— Entendi. Puxa, cara! Você é demais mesmo. Agora deixa eu aproveitar e fazer xixi que não estou agüentando.

— Espera! É bom você saber que a luz…

Mas você já desligara e estava com aquela cara de beatitude, aliviando a bexiga. E o barulhinho de água caindo n’agua condizia perfeitamente com seu lindo traseiro pressionado contra a tampa do vaso.

-oOo-

Depois de um ligüini com vôngoli veio a preguiça. Escovar os dentinhos e cama. Com um bom livro, claro.

Você dá um tapa no travesseiro para fazer um buraco para a cabeça. Um hábito de criança. Apaga todas as luzes. Acende a lâmpada de leitura, dessas moderninhas, dicróicas e brilhantes, uma beleza. Ajusta a direção do foco e pega o livro.

O livro está no escuro. “Que diabo?…”

Você move o livro para colocá-lo sob a luz, quando descobre que ela incide sobre o lençol, o que torna a leitura desconfortável. “Não devia ter bebido tanto daquele vinho”. Move a lâmpada de novo, desta vez de olho no livro, até acertar. Agora sim. Assim está bom.

Começa a ler. Um olho na página, outro na luminária. Não era certo. A luminária estava num ângulo esquisito. O foco deveria estar na sua testa, e no entanto… Você levanta a cabeça e se põe de frente para a lâmpada. Ela parece mortiça como quando é olhada de lado. Daí você vai abaixando a cabeça, abaixando… e aí está. Agora pode ver todo o brilho dela, cegante mesmo.

Fecha o livro e fica pensando. Acende a luz do quarto e olha de novo, desta vez procurando encontrar o que está torto. Nada. A lâmpada está perfeitamente alinhada no soquete como sempre estivera. Mas o foco…

Você pega o telefone de novo.

— Escritório de patentes. Bom dia.

— Eu queria falar com o Albert E.

— Pois não. Um minuto, por favor.

Passam-se três.

— Alô?

— Sou eu de novo.

— Humm.

— Albert, minha lâmpada de cabeceira. O foco dela…

— …parece torto.

— É! Então você sabia?

— Claro que sabia. Eu tentei avisar, mas você desligou na minha cara.

— E eu vou entortar também? Quer dizer… essa coisa não é perigosa?

Albert dá uma gargalhada.

— Tecnicamente você já entortou. Só você que não vê. Mas essa é outra estória, difícil de explicar pelo telefone. Vamos ficar apenas na luz.

Você olha a sua mão. Parece normal apesar da ligeira tremedeira. Dedos retinhos.

— A luz então, Albert.

— Há várias maneiras de explicar. Todas elas certas. Então, vamos ficar com uma só. Para começar, a luz não entorta.

— Tudo bem. Ela faz uma curva então.

— Não. Não faz. Um raio de luz só pode viajar em linha reta.

— Albert, agora você está enrolando. Você já sabia, antes de eu dizer, que o foco da minha lâmpada estava torto!

— Não disse não. Leia de novo e você vai ver que eu disse que ele parecia torto.

— Tá bom. A luz parece torta. E porquê?

— Raciocine comigo. Se a luz não está torta e no entanto ela não ilumina no lugar certo, que explicação você daria?

— Bem… deixa ver… não… deixa pra lá. É uma idéia muito louca. Você ia rir de mim.

— Juro que não vou não. Continua!

— Bom… se ela não ilumina onde deveria mas não há nada de errado com ela, então é porque o mundo é que está torto, ora bolas. Não disse que era besteira?

— Besteira coisa nenhuma. Isso é pensar grande. Pensar “fora da caixa” como diz o Flávio.

— Então tudo aqui está torto??

— Tudo aí está torto.

— E porque eu não vejo assim?

— Como eu disse, te explico isso aqui quando você voltar. “Se voltar” pensa Albert, mas não é besta de dizer isso.

E Albert continua:

— Presta atenção. Você queria gravidade. Então eu falei para você acelerar e teria a mesma sensação de gravidade que teria aqui na Terra. Daí você não pôde acelerar mais porque chegou à velocidade da luz, uma barreira intransponível. O jeito foi fazer você acelerar para o lado, ou seja, fazer uma curva. Tá me acompanhando?

— Aaaalbert…

— Certo. Você não é uma paca. Continuando: tudo aí, você, o foguete, tudo está fazendo uma curva para que você possa sentir seu próprio pesinho, certo?

— Certo.

— Tudo, menos a luz. Ela não faz curvas.

— Peraí. Então eu vejo a luz fazer a curva porque o mundo está fazendo a curva e ela não pode…

— Isso mesmo. É por isso que eu costumo dizer que não é a luz que se curva, mas o espaço que está curvado.

Albert hesitou um pouquinho antes de continuar. Precisava explicar isso de outro jeito.

— Olha, faça de conta que você é a luz. Está andando retinha, cuidando da sua vida como sempre. Você sai do farol do carro, o carro faz uma curva mas o motorista não nota nada, porquê você é tão rápida, tão rápida, e o carro é tão lento, tão lento, que ninguém percebe nada e deixam você em paz.

— Mas o foguete aqui não está nada devagar.

— Isso mesmo. Continue sendo a luz. De repente você está num outro ambiente (ou sistema) que dessa vez se move à mesma velocidade que você, ou muito próximo disso. Quando o “motorista” faz a curva agora, pega você em flagrante e observa que a facho do farol entortou e só voltou ao normal depois que a curva acabou.

— Ai ai ai.

— Ai ai ai mesmo. Ele desce do carro e briga com você. E você se defende: “Que é isso cara? Vai te catar! Eu andei em linha reta o tempo todo!”. E você estava dizendo a verdade. Do seu ponto de vista.

— É que o mundo “entortou”…

— Prefiro dizer que o espaço curvou-se para você. Só para você.

— E se alguém anda em linha reta em um espaço curvo…

— Parece que andou em curva para quem está no espaço “reto”.

Você se cala um pouco, digerindo a idéia.

— Isso tem conseqüências…

— É claro que tem. E a mais importante delas é a seguinte: A aceleração curva o espaço. Gravidade é a mesma coisa que aceleração. Logo, a gravidade curva o espaço.

— Puxa! que coisa complicada e ao mesmo tempo… elegante de se dizer!

Você não pode ver, mas Albert cora um pouquinho.

— Isso não é nada. Essa parte da teoria é incompleta e deixa um monte de perguntas para trás. Perguntas que, se pensar um pouco mais, você vai fazer de qualquer jeito.

— Você me conta o resto quando eu voltar?

— Conto. Estou pensando em reunir tudo isso numa coisa só. Acho que vou chamar de Teoria da Relatividade Geral.

— Gostei do nome. Bem, agora vou dormir. E conviver com minha luz torta por aqui.

Albert corre a advertir:

— É, mas antes é melhor você desacelerar logo senão…

Mas você já tinha desligado.