Ênio e o russo

Ênio e o russo

Foto: o cosmonauta Pavel Vinogradov

O nome do homem é Ênio Candotti. Ele é presidente da SBPC. Que quer dizer Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Ele é — presume-se — comprometido com o avanço da atividade científica na pátria amada, salve, salve.

Mas deixa explicar o que o Ênio tem a ver com essa história.

Você já sabe que, depois de mandar metade do PT e do governo Lula pro espaço, nós conseguimos por fim mandar um astronauta. Ou cosmonauta, como apraz aos nossos inefáveis irmãos comunistas.

Pois bem. Eu assisti ao lançamento da Soyuz pela Globo News, que fez uma cobertura de tempo integral. Meio que para passar o tempo enquanto escrevia. Aos poucos, à medida que chegava a hora agá, fui ficando tenso. Grudei os olhos na TV. Cruzei os dedos. Agora eu sei como se sentem os estrangeiros do primeiro mundo quando uma nave é lançada com seus nacionais a bordo. Pura adrenalina.

Aos poucos, e evento me envolveu, e percebi quão importante era. Essa pequena viagem de um brasileiro ao espaço tem sim um significado para além da propaganda oficial, do ufanismo baratinho ou do oba-oba televisivo.

As câmaras, ligadas antes, durante e depois da partida transportavam a gente para dentro da espaçonave. O efeito foi indescritível. Eu quero o DVD da emissora.

O brasileiro Marcos César Pontes se comportando como esperado de um marinheiro de primeira viagem.

O americano Jeffrey William parecia brincar de astronauta num filme de Hollywood: compenetrado, falava no mike do capacete coisas que a gente não ouvia mas que a imaginação traduzia como “cruzando 5-5-3-2 ponto 5 em 4-zero-zero… empuxo em 2-9-7 e subindo…”, e outras coisas que astronautas decoram para impressionar o contribuinte americano pela televisão. Mas a pose era traída pela humanidade do sujeito anotando todas aquelas coisas numa prosaica prancheta. Enquanto o foguete tremia, a ponta de cima do bloco teimava em cair sobre a mão, por força da gravidade. Finda a gravidade, foi a vez da pontinha de baixo virar para cima. Fora o barbante que prendia a caneta, e que teimava em enrolar sobre si mesmo, obrigando o bravo rapaz americano a desmunhecar seguidamente para desembaraçar a coisa.

Mas o grande barato, espetáculo mesmo, ladrão de cena, era o comandante russo, Pavel Vinogradov. Sujeito de meia idade, esguio, de bigodinho. Veterano. E que puta veterano. Dono, doníssimo da situação. Na horizontal, quase curvado, pernas dobradas no exíguo espaço, tinha um ar quase de enfado. O pé direito batia, impaciente, a concordar com seu dono: “E essa porra que não chega nunca…”. Só o olhar era agudo, vigilante, de quem sabe que aquela merda toda podia explodir a qualquer momento, bem embaixo do seu rabo. Afinal, quem tem aquilo tem medo.

O homem tinha entre as pernas uma vareta. Isso mesmo: uma vareta, dessas de antena de televisão que professor usa pra apontar na lousa, porém mais grossa e não tão comprida. Mas devia ser um troço pensado, sofisticado, porque tinha um apêndice gozado, em ângulo reto, cuja utilidade fiquei doido pra descobrir. E para quê servia? Para apertar botão. O russo tirava a varetowisky das pernas e a usava com precisão, com elegância, com gestos rápidos, para premer uma tecla, mover uma alavanca ou girar um knob no painel à sua frente, que a posição quase fetal impedia de alcançar com as mãos. E com a displicência de um jogador de snooker acrescentando pontos ao marcador do boteco com o seu taco. Depois, sem mesmo olhar pra baixo, coçava a perna à procura de uma dobra no macacão espacial onde prendia o instrumento.

Acima do comandante, um ursinho de espuma preso num elástico. O ursinho vibrava e balançava. Até que, já em órbita, o urso some, flutuando fora do alcance da câmara. Ora, e não é que o bicho aparece de repente, mancha branca e desfocada, boiando inconveniente bem na frente da lente?

Mijei de dar risada imaginando a seguinte cena, em uma nave americana, com comandante gringo e tudo, tipo Tom Hanks:

— “Houston, we have a problem.
(pausa)
— Go ahead Intrepid.
— The urso is flying bem ahead da câmara, roger.
— Copy, Intrepid. Please hold.

Seguem-se momentos de tensão, enquanto alguém corre pelas ruas molhadas de Houston para buscar em casa o único especialista capaz de divisar uma forma de desencravar o urso da objetiva. Finalmente o homem chega, faz um monte de contas e ergue um papel com o ângulo exato pelo qual deveria ser o urso evacuado de sua presente posição, sem colocar em risco a missão.

— Intrepid, Houston.
— Go ahead, Houston.
— The urso must be moved at five-five-zero-point-five degrees sem danger. Copy that?
— Roger, Houston.

E o astronauta, suando discretamente nas têmporas, remove com mão firme e olhar de águia o fucking urso da frente da câmara, torcendo pro diretor do filme não ser o Tarantino.

Mas na vida real a nave era russa, comandada pelo puta veterano, e ainda por cima com um brasileiro por perto. O comandante olha pro urso e enfia a mão entre as pernas. Cata a vareta e, antes que o animal possa reagir, esgrima com ele, futucando o bicho para lá e para cá, sem efeito. Perde por fim a paciência e, num golpe final, dá-lhe um peteleco mortal, como quem dá uma chinelada num mosquito. Nem pensou que podia acertar o descravinador inercial, que desbalancearia o giroscópio de popa, que liberaria o oxigênio liquido para dentro da câmara de osmose estelar, que provocaria uma bela explosão bem debaixo do seu rabo.

Depois, sem olhar para baixo, coçou a perna, etc, etc. O americano fez que não viu.

O fato, queridos ouvintes, é que toda aquela movimentação me fascinou. Por trás da aparente displicência havia um profissionalismo assustador, uma milimétrica organização, uma inimaginável complexidade. Aquelas pessoas se esforçaram demais para conseguir tudo aquilo, anos a fio, numa atividade em que sequer engatinhamos.

Pagamos dez milhões de dólares à Rússia. O preço da passagem para o nosso astronauta, cansado de esperar por uma missão em foguete americano que demorava e que talvez nem viesse acontecer. E é fácil espiar por trás do nosso orgulho verde-amarelo para dizer que, afinal, o vôo de Marcos César Pontes de pouco vale. Ele é apenas um carona em uma nave estrangeira. Por mais que aprenda, não aprenderá a fazer um foguete que não exploda.

É aí que entra Enio Candotti, o tal. Entrevistado, mostrou-se um crítico atroz dessa viagem. Apontou o desperdício de tempo e dinheiro, que melhor empregados seriam em outra coisa. Com a autoridade de presidente da SBPC, e de físico reconhecido, desfiou todas as razões que temos para desdenhar da presença do brasileiro lá na estação espacial. De como são inócuas as experiências programadas para ele. Sério, deu-nos uma lição de sensatez, desnudando a farsa que é o tumulto construído pelos brasileiros em torno de um pífio — senão vergonhoso — acontecimento.

Acontece que Ênio Candoti está enganado.

O Brasil precisa, desesperadamente, de mais cientistas, de mais engenheiros, de mais técnicos. Ao contrario das profissões ditas humanas, o futuro (bom) cientista ou (bom) engenheiro se descobre criança. É o sonho, a descrença no impossível e o fascínio pelo inadmissível, nos corações e mentes de meninos e meninas, a base de um corpo sólido de pesquisadores e desenvolvedores. Quantos deles, acompanhando essa “tola” aventura espacial, não terão despertado para a sede pelo desconhecido que nem mesmo eles sabiam ter?

A viagem dessa Soyuz poderia ter feito mais pela progresso da ciência do que é capaz de enxergar o homem dito responsável por ela.