E ele, por onde andará?

Ele era assim. Para que ficar apenas na teoria da física de escola? Era mais divertido passar horas girando um velho disco de 78 rotações com um lápis espetado no furo central, sobre uma folha de papel, e depois observar a trajetória das marcas deixadas pelo grafite. E daí entender a precessão, a força centrípeta, momentos de inércia, velocidades tangenciais.

Idéias? Ele as anotava cuidadosa e meticulosamente, com letra de calígrafo. Colocava seus projetos futuros em desenhos enigmáticos, feitos em folhas de cartolina, que pregava na parede para poder observar melhor.

Consertava coisas. Durante a guerra, o rádio de sua cunhada Rosa recusava-se a funcionar. A causa era de fácil diagnóstico: uma válvula retificadora queimada. A solução, contudo, era problemática: não existiam válvulas eletrônicas à venda em tempos de guerra. As poucas disponíveis eram disputadas a peso de ouro. Um pedaço de folha de cobre, um lápis de carpinteiro, e estava improvisado um diodo retificador. Hoje, em tempos de internet, a informação corre farta, e o truque estaria em qualquer página de física. Não sei, contudo, de onde tirara ele a informação naqueles tempos. Mas o fato é ele sabia que um semicondutor podia ser construído combinando-se uma ponta de grafite com um pedaço de metal. O rádio da Rosa ainda roncava um pouco, e o grafite tinha que ser trocado de tempos em tempos, mas a novela ficou garantida enquanto durou o racionamento.

Inventar coisas era da sua natureza. Nos anos 40, chuveiros elétricos eram montados com uma chave faca, dessas usadas em caixas de luz, presas à parede, bem no alto. Para ligar e desligar a resistência, amarrava-se um pedaço de cabo de vassoura à alavanca da chave, para que pudesse ser acionada com segurança pelo banhista. Abria-se a água primeiro e, só depois, acionava-se a chave ligando a resistência. Ao final do banho, desligava-se a corrente primeiro, para depois fechar a torneira. Bastava inverter essa seqüência para que a resistência queimasse. Inconformado com o inconveniente, construiu um chuveiro inteiramente novo. A resistência era ligada pela própria pressão da água, através da força gerada por um diafragma de borracha sobre um par de contatos elétricos. Dessa forma, a resistência nunca funcionava sem que a torneira estivesse aberta. Havia inventado o chuveiro elétrico automático. Tivesse ele um espírito um pouco mais empreendedor, e teria patenteado a engenhoca. Seus descendentes estariam milionários.

E por falar em descendentes, até a educação do filho foi pontuada por episódios um pouco, digamos, heterodoxos. Quando o menino questionou pela primeira vez a natureza da eletricidade, ele retirou o motor da máquina de costura, tomou um dos fios e o ligou na tomada. O outro buraco da tomada foi conectado a um outro pedaço de fio, cuja ponta desencapada ficou solta no soalho de madeira. Depois completou o circuito com uma porção de talheres encostados uns aos outros até chegar ao segundo fio do motor. Ao se tirar ou recolocar qualquer garfo, faca ou colher da fila, o motor girava ou parava. O menino brincou durante horas com aquilo. Aprendeu até como tirar algumas faíscas azuis, muito bonitas, das pontas dos garfos, enquanto ele explicava, tintim or tintim, como aquilo tudo funcionava. A mãe da criança, certamente, não estava em casa.

Seu filho lucrava, também, com a natureza do seu trabalho. Na pequena cidade de montanha onde morava, ele consertava de tudo. O homem do carrinho de algodão doce teve o mecanismo de sua máquina consertada por ele, de graça. Em troca, o menino ganhava um grande tufo de doce quando o homem passava pela rua. O enorme motor da roda gigante queimou? Ele não só o enrolou, como deu um bom desconto. Em troca, o menino…

Fim dos anos 50, ele ainda jovem mas já com os dias contados, foi colocado pelos médicos numa coisa conhecida como balão de oxigênio. Era uma versão primitiva das tendas de oxigênio que se vê nos hospitais modernos. Ficar na cama, com os movimentos tolhidos e vendo o mundo através de uma tenda plástica não era para ele. Chamou sua mulher, pediu suas ferramentas e algum material. Em uma tarde construiu uma pequena cânula que podia introduzir nas narinas para respirar. Prendeu uma fina mangueira à cintura, deixou o cilindro no quarto e voltou a movimentar-se pela casa. Devolveu o resto do equipamento ao hospital. Vários médicos visitaram sua casa para ver a invenção.

Mas ele não era só um homem criativo, um inventor, um espírito inquieto, uma mente inquiridora. Era também um homem capaz de, todas as manhãs de primavera, colher uma pequenina rosa silvestre no alpendre de casa para prendê-la aos cabelos de sua esposa.

Para mim ele foi, apenas, pai.