Domingo no parque

Minhas andanças no Louvre são sempre assim. Andanças. Não sendo artista nem estudioso da Arte eu pago o ingresso, pego um mapinha dos pavilhões (para achar a saída mais próxima quando estiver cansado) e vou entrando sem pedir licença. Normalmente pelo pavilhão Denon, talvez porque lá estejam as obras do Leonardo.

Perambulo pelos corredores com um certo ar de desinteresse, os olhos varrendo tudo, e deixo que as obras me atraiam. Às vezes a imagem conhecida de um quadro mais popular ou famoso faz com que me aproxime, como a dizer olha aquele lá, vamos ver se é mesmo o que dizem.

Então porquê vou ao Louvre? Porque descobri faz tempo que a sensação de ser arrebatado por uma obra de arte é uma experiência profunda, densa, um mergulho em nossa própria intimidade mais do que na imagem. Uma revelação. E isso invariavelmente acontece.

Mas quando acontece a gente fica alí parado um tempão. Um minuto, dez, quarenta? Sei lá. Se houver um banco a gente senta e continua admirando. Não sai de perto enquanto cada detalhe não esgotar sua carga de surpresa, e a emoção – boa ou má – não estiver seguramente capturada e impressa em nosso espírito.

Aí vai uma amostra da minha colheita este ano. Daquelas obras que eu não conhecia e que mais me marcaram.

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Girodet – Atala portée ao tombeau

Exemplo límpido de obra que não deveria atrair particularmente a minha atenção. Nem mesmo é o melhor do pintor. Mesmo sem conhecer a estória eu fiquei imediatamente intrigado com a expressão do moço. Claramente enterrando a amada, sua expressão não é de dor, nem de sofrimento. É antes de uma indefinida tristeza. Seus cabelos desalinhados sobre a mortalha fazem mais justiça ao que a morta esperaria dele do que seu semblante. E foi isso que despertou meu interesse. Inquiri o autor mil vezes, sentado à frente do quadro que é enorme (2 x 2,6 metros). Ele não respondeu, mas eu fiquei encantado assim mesmo. Atala é um romance escrito pro Chateaubriand em 1801, e se passa em uma tribo na América. O rapaz deve ser, presumo eu, um índio. A mocinha envenena-se por não poder casar com o amado: havia feito um voto que a entregava com exclusividade a Deus. Daí as duas cruzes no quadro.

Guérin – Le retour de Marcus Sextus

Arrebatadora em cada detalhe. Ao contrário de Atala a expressão do homem, seu olhar perdido na dor, na raiva e na impotência que partilhamos e sentimos com ele e que o desespero da filha acentua. O detalhe da mão da mulher entre as suas é tocante. A técnica do pintor é gigante, magistral. Os “truques” de iluminação dirigem, mais que o olhar, o coração para a intensa carga dramática da cena. O rosto do personagem voltado para a sombra diz tudo e é o elemento mais importante da composição na minha pequeniníssima opinião.

Outra obra que me fez sentar por longo tempo, e que é muito perigosa. Levantei-me antes que o povo percebesse os óinho moiado. Eu sou espada.

Ticiano – O Homem da Luva

Há quem torça o nariz para o artista quando este tenta reproduzir fotograficamente alguma coisa (que nome tem isso, mestre Tapadinhas? realismo?). Eu não sou tão sofisticado. Para mim é apenas uma das muitas formas de pintura e ponto final. Nenhuma reprodução mostra o que realmente é a luva na mão desse homem. Quanto mais se olha, mais os detalhes surpreendem. Pode-se sentir o cheiro do couro já bastante batido. E a composição chama a atenção imediatamente pela elegância. Eis um quadro que eu roubaria para ter na sala.

Jacques-Luis David – A sagração do imperador Napoleão I

Praticamente um mural (tem quase dez metros de comprimento), nunca atraiu muito minha atenção e já ia passando direto quando vi os dois coroinhas no extremo direito da pintura. Em meio à solenidade os meninos estavam mais interessados na rica espada do oficial à sua frente, o que dava uma graça à cena.

Johannes Vermeer – A rendeira

Uma revisita. Sempre achei refrescante esta obra, de um artista que gosto demais da conta. É de uma delicadeza ímpar. Os holandeses estão, certamente, entre os meus preferidos.

Jean Goujon – A ninfa e o gênio

E agora um pouco de sacanagem, e outra revisita. Tenho que apreciar esta escultura com as mãos para trás. Infelizmente a imagem não faz justica à obra. Apesar da aspereza do mármore já corroído, sinto todas as vezes uma vontade imensa de acariciar as coxas desta moça. Mas certamente me custaria um pito, se não deportação…

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E sim, é claro, fiz uma visita rápida a Mãos-de-delícia, nossa querida Lisa de Pecado e Capital. Ao contrário da última vez que a vi, ela agora ganhou uma parede novinha, construída no meio do salão só para ela. Dei vexame no meio do povo quando não consegui segurar uma risada – risada mesmo – ao pensar sem querer: “Ah! do que não seriam capazes essas mãos…”