Desapropiando o rádio

Desapropiando o rádio

Foi um dia desses aí atrás. O programa era o CBN São Paulo. Milton Jung entrevistava o Andrea Matarazzo sobre os planos da prefeitura para a cracolândia.

Dado momento, o jornalista pergunta:

“…então haverá alguma desapropiação?”

O entrevistado percebe o “lapso”, e responde escandindo delicadamente a palavra certa.

“…não, não haverá qualquer de-sa-pro-pri-a-ção.”

Dali para o fim o entrevistador ainda repetiu quatro vezes a tal de desapropiação.

O pior é que esse não é um episódio isolado, e como se vê nem sempre acontece com repórteres de rua recém saídos da escola de jornalismo. Passe uma manhã ouvindo rádio e você vai desanimar com tanta barbaridade.

Numerais ordinais, por exemplo, não foram aprendidos na escola. Todos faltaram à aula nesse dia. E tome repórter dizendo que a ocorrência foi registrada no “98 DP”, como se nonagésimo oitavo distrito fosse demais para o limitado vocabulário do sujeito. Alguns têm ao menos o pudor de dizer que o fato “aconteceu no DP de número 98″…

Há alguns anos troquei alguns e-mails com o Marcelo Parada, a respeito dos erros cometidos pelo pessoal da Bandeirantes FM. Foi quando comecei a ouvir rádio no carro com alguma regularidade, e a me divertir com os gatos do pessoal no ar. Posso garantir que a situação piorou até não ter mais graça nenhuma. O que eram deslizes compreensíveis — afinal o rádio jornalismo é feito quase sempre ao vivo — foram lenta mas firmemente se transformando em tristes demonstrações de desprezo pelo idioma.

Os vícios e modismos, então, são de amargar. Entrevistados que “repercutem” a notícia. Diferente não existe mais: tudo é “diferenciado” (expressão herdada do tal mundo corporativo, mas isso é outro artigo, que fica para outra vez). Carros, atletas e índices econômicos exibem um troço horroroso chamado de “performance”, como se desempenho não fosse suficientemente chique para esse pessoal.

Mas uma coisa deve ser dita em favor dos profissionais do rádio, se serve de consolo: eles estão em perfeita sintonia com a dita elite empresarial, publicitária e governamental do Brasil. Entrevistados ilustres também exibem sua ignorância com assustadora frequência — e desembaraço. Gente que adora “falar difícil” sem ao menos ter aprendido a pensar com facilidade.

E finalmente, para ser justo, tenho que louvar velhos profissionais como Heródoto Barbeiro, José Paulo de Andrade, Salomão Esper, Zé Nello, Milton Parron, Maria Lydia, Juca Kfouri e alguns outros. E também jovens como Luciano Dorin, Roberto Nonato e Adalberto Piotto.

São poucos num oceano de profissionais sem o menor amor pela língua portuguesa.