Cena doméstica

Cena doméstica

Noite agradável, chuva e vento depois de uma tarde infernalmente abafada e quente.

Depois do excelente fusili cozido pela Tati e tornado delicioso pelas mãos do chef Reinaldo Ortega, vem aquele momento preguiçoso que sucede todo jantar em família.

Cristina, forçada pela Tatiana a se contentar com uma beberagem turva e esquisita que o fabricante chama de cerveja de trigo (enquanto Tati ficava com as Itaipava, preferidas pela primeira), cochila no sofá. A dona da casa hipnotiza com o barulho familiar e sempre reconfortante da louça sendo lavada (reconfortante não só no sentido figurado, mas também concreto: significa que alguém que não você está fazendo o trabalho sujo). A Bia ajuda e o Ivan desapareceu casa adentro.

Reinaldo e eu, ainda à mesa agora limpa, aproveitamos para relaxar jogando conversa fora sobre coisas leves e digestivas que alegram o coração masculino nesses momentos mágicos: política, administração, economia, tecnologia, marketing…

Discordamos quanto à similitude entre a indústria romana de bigas e a moderna indústria automobilística. Defendo que a influencia da tecnologia sobre o negócio dos fabricantes de bigas, seus produtos e o mercado patrício não é diferente do que acontece hoje com relação à GM, seus carros e os usuários da marca. Coisa de doido.

Mas a conversa é profícua. Concordamos em duas coisas.

Primeiro, que o mundo jamais verá uma geladeira conectada á internet, como alguns néscios profetizavam há poucos anos (alguns ainda insistem em afirmar que isso ainda vai acontecer!). Algum leitor é capaz de me dizer uma única utilidade para uma monstruosidade tecnológica dessas pela qual pagaria um mísero Real a mais?

Em segundo lugar, que os notáveis de reconhecido saber que estão decidindo o destino da televisão digital no Brasil adoram contar lorotas. Dizem que o novo padrão terá uma extraordinária função social, ao permitir a interatividade entre o distinto público telespectador e o mundo. E a imprensa compra, sem pensar.

Recentemente, em uma boa matéria de capa de Veja, na qual a revista trata do assunto (edição 1.944, 22/2/2006), os autores dizem textualmente: “…será possível interagir com as emissoras com um toque no controle remoto — votar num show de auditório,participar de uma pesquisa, comprar os produtos do intervalo comercial”.

Pergunto eu (já que ninguém pergunta): quando o alegre consumidor apertar o botão do controle remoto, como diabos a rede Globo vai saber que botão o sujeito apertou? Bem, há quatro maneiras. Pode-se usar o próprio cabo da TV a cabo, se o dono da TV for assinante de TV a cabo. Ou então pode-se instalar um elo de rádio entre a residência do cidadão e uma rede. Alguém paga por isso? Pode-se ainda instalar uma antena parabólica no telhado do consumidor para fazer um uplink com o satélite. Essa tecnologia existe e custa mais de um pau por residência. E, finalmente, pode-se usar um modem ligado à própria linha telefônica da vítima para fazer essa comunicação.

Escolha qualquer da soluções acima: nenhuma deles parece ser algo que “democratize” a interatividade pro povão, como apregoam há anos políticos que, de comunicação, mal entendem como funciona um telefone. Interligar maciçamente os lares (principalmente os mais pobres) à uma rede — qualquer que seja ela — custa dinheiro. E muito. Não vai acontecer já e, se acontecer, ninguém garante que a alavanca dessa implantação será a tal de “TV digital interativa”.

A questão não é técnica, é mercadológica (ainda bem). Se você é um privilegiado que dispõe de internet em casa, por que cargas dágua compraria uma TV que lhe permita fazer compras se já pode fazer isso muito mais eficientemente do seu computador? E se você pertence à classe dos desvalidos que não podem arcar com um computador em casa, gastaria seu parco e suado dinheirinho para comprar uma bugiganga qualquer que apareça na tela da TV usando o controle remoto? Nunquinha. É mais barato anotar o telefone do vendedor e fazer a compra do orelhão da esquina.

Pesquisa pela TV? Pergunte ao Carlos Augusto Montenegro se ele assinaria um cheque do IBOPE para instalar uma traquitana qualquer em milhares de domicílios, e prover a tal ligação. Sim, porque você não pagaria para responder a pesquisas, pagaria?

Esse tipo de interatividade já existe, o usuário conhece e tem custo marginal para todos: chama-se telefone. Funciona que é uma beleza para o Big Brother, para as empresas que vendem pela TV, para pesquisas-relâmpago no Fantástico.

Não me entendam mal. Acho a idéia ótima, e gostaria de me desdizer no ano que vem. Proclamar que estava errado e engolir o meu chapéu. Um dia chegaremos lá, com certeza. A televisão digital permite interatividade sim. Em casa e até mesmo na rua, pelo celular. Mas daí a vender isso para a sociedade como um grande avanço “social”, é de morrer de rir… ou de raiva.

Mas já se faz tarde, Tati já serviu o café e as crianças começam a se inquietar. Reinaldo e eu, de alma lavada depois de tão refrescante conversa, com o sentimento do dever cumprido para com a pátria e certos de haver contribuído para a evolução da humanidade, nos calamos satisfeitos.

O silêncio desperta Cristina, que espreguiça e grita: ZARPAAAAAAAAAARE!!!

Hora de ir pra casa.