Cartinha a Michel Temer

Caro Michel:

Quero ser o primeiro a felicitá-lo por chegar à Presidência da República, o mais alto posto ambicionado por um político. Faço isso agora, antecipada e extemporaneamente, porque depois serão tantos os tapinhas nas costas que você nem dará bola para meus cumprimentos. Eu também quero entrar para a História como o primeiro brasileiro a se dirigir a você como Presidente.
Você não me conhece, mas eu manjo você faz tempo. Eu sou aquele cara com quem você trocou algumas palavras educadas na banca da Praça Panamericana há muitos anos. Lembrou? Claro que não.
Mas vamos ao que interessa.

Cara, você está metido em uma encrenca federal. Literalmente. Já há quem fale em apear você do cargo antes mesmo que esquente a cadeira. Minha filha mais velha, por exemplo. Mas ela é maior de idade e não há nada que eu possa fazer.

Eu, de minha parte, vou lhe dar um voto de confiança. Não porque ache que você seja santo, não me entenda mal. Não ofenderia um político com tal epíteto, cruz credo. Mas porque acho que você tem o estofo do político e é ambicioso. Porque acho que não vai desperdiçar a chance de ser o cara que tirou o país do buraco, ficar na História, ser lembrado não como salvador ou pai-da-pátria, mas como estadista. Espero não estar enganado.

De qualquer forma, não esqueça que sou mais poderoso do que você. Você pode ter a país aos seus pés, mas sob os meus tenho o duro asfalto da Avenida Paulista, se é que me entende.

Se você for o que gostaria que fosse vai ter que exigir do povo ainda mais sacrifícios. Eu sei disso, mas muitos não sabem. Mas seja firme, tenha honestidade de propósitos e o povo brasileiro vai entender.

Encare as coisas de frente, conquiste-nos, una em vez de dividir, não desperdice a confiança que o mercado lhe renderá e, sobretudo, não dissipe a esperança do eleitorado.

Assim você, Michel, não terá nada a temer.
Sem trocadilho.