Bolas de cristal

É muito bom fazer uma previsão e acertar. Mesmo trapaceando.

Em 1994 eu previ que a Nielsen não conseguiria instalar um sistema de medição de audiência de televisão no Brasil, apesar de seu poderio. Acertei em cheio mas, como disse, trapaceei. Eu sabia uma coisa que os engenheiros da gigante norte-americana não sabiam: que ondas de rádio não fazem curvas em condições não-relativísticas, e que a potência de um sinal decresce com o quadrado da distância. Digamos que eu tinha informação privilegiada e a usei descaradamente a meu favor.

Agora leio no Estadão uma pequena entrevista com um futurólogo da Norman Nielsen Group chamado Don Norman. Ele preconiza que os PCs vão desaparecer em dez anos.

Diz o homem: “Eu previ há dez anos que os computadores sumiriam e agora parece que daqui a dez anos isso será verdade”.

O que dirá ele daqui a dez anos?

E continua: “…os computadores estão dentro de quase todas as coisas – de torradeiras e fornos a máquinas de lavar e TVs”. Notem que ele fala no presente do indicativo.

Em 1997, trabalhando para uma multinacional fabricante de semicondutores (National), fiz uma aposta com um tecno-futurólogo: geladeiras não seriam ligadas a nenhuma rede – muito menos à Internet – em qualquer futuro visível.

Meus colegas americanos já haviam também, por essa época, escrito uma pequena gozação na forma de uma nota de aplicação na qual uma torradeira elétrica era dotada de conexão à Internet. A nota listava uma dúzia de vantagens, nenhuma delas útil.

O Don Norton deve ganhar um bocado de dinheiro para prever coisas. Sua empresa é especializada em “usabilidade” – seja lá o que isso signifique. Mas enquanto não compreender a diferença entre computação e microcontrole, entre um mero circuito digital e um equipamento de informática, vai continuar atirando a esmo. E errando.

Foto: Herman Kahn, o pai da moderna “futurologia”.