Batmacumba ê ê

Em 1968 os Mutantes gravaram uma música do Gil e do Caetano chamada Bat Macumba. Era uma faixa do primeiro disco deles, em sua formação original com Rita Lee, os irmãos Arnaldo Baptista e Sergio Dias, mais o Dinho e o Liminha. Eu tinha então 17 anos. Comprei o LP na Pergaminho (a loja do Joaquim, lá em São Vicente), e virei fã incondicional da banda — que naquele tempo a gente chamava simplesmente de “conjunto”.

Muitas daquelas músicas passaram a fazer parte da minha história, e algumas ainda me transportam àqueles tempos como nenhuma outra, como Desculpe Baby e Dia 36. Lembro que gravei muitas delas — inclusive Bat Macumba — em meu gravador Crown (K7!), o iPod de então. Eu gostava particularmente do efeito aplicado à guitarra do Serginho.

Nunca poderia imaginar que mais de 35 anos depois, Bat Macumba e seu efeito especial estariam, literalmente, em minhas mãos.

O tal pedal de efeito foi desenhado especialmente para Bat Macumba pelo terceiro irmão e Mutante invisível Cláudio César Dias Baptista, o Té. Cláudio — um notável autodidata, diga-se — era o cérebro por trás de todo o equipamento eletrônico dos Mutantes. Ele desenhava e montava qualquer coisa que os irmãos Arnaldo e Sérgio inventassem para seus instrumentos. Pedais de efeito, guitarras (pelo menos duas delas lendárias), e até equipamentos de estúdio. Excepcional projetista, Cláudio partilhava graciosamente seus conhecimentos publicando artigos em uma revista muito popular na época, chamada Nova Eletrônica. Toda uma geração de engenheiros de áudio e malucos por eletrônica — inclusive eu — tiveram no Té um verdadeiro guru. Anos mais tarde, quis o destino que eu pegasse nas mãos suas criações originais, e me tornasse responsável pela preservação e manutenção de algumas delas.

O Serginho eu conheci através de um amigo comum, o engenheiro-executivo-roqueiro Vicente Scopacasa. Vicente é uma enciclopédia ambulante do rock. Só para que vocês tenham uma idéia: quando a BBC londrina precisou, anos atrás, buscar gravações originais de bandas inglesas da era pré-Beatles para uma produção, os ingleses tiveram que vir ao Brasil para pesquisa-las — na coleção particular do Vicente.

No começo, Serginho e eu nos relacionamos por conta de questões técnicas ligadas à música digital, a respeito do qual ele tem idéias muito próprias, ousadas e capazes de enlouquecer um engenheiro. Em pouco tempo cimentou-se uma amizade aparentemente improvável. São duas trajetórias de vida muito diferentes, mas que tem em comum as mesmas buscas, desde a adolescência. Além, é claro, do mesmo gosto por aviões, por tecnologia e por maluquices em geral. Uma amizade que é, como diz o Serginho, um grande barato.

E tudo ia muito bem e calmamente. Tocávamos projetos comuns, Serginho e Lurdinha (coitados) serviam de ombro quando a nova fase da minha vida apertava, e ainda havia tempo para ouvir um dos melhores guitarristas do mundo, enquanto o papo rolava solto sobre qualquer coisa.

Mas os ingleses tinham que meter o bedelho nessa calmaria. Resolveram inventar um tal festival da tropicália em Londres. Pintura, cinema, músicas do movimento tropicalista. Caetano, Gil, Gal, Tom Zé. Faltava Mutantes. Ligam pra Sergio Dias, fazendo o convite. Queriam que a banda fizesse o show na festa de encerramento. Poucos brasileiros sabem, mas os Mutantes são um ícone da música brasileira dos anos sessenta e setenta na Europa e nos Estados Unidos, como vamos ver adiante.

Serginho fica de falar com o resto do pessoal, sem promessas. O fato é que os irmãos Arnaldo e Sergio estavam afastados há anos. As razões desse distanciamento estão na imprensa e na web, e é de domínio público; não vou cansar vocês com a história. De repente, todos os escolhos que por anos apartaram os Mutantes originais diluíram-se, e eles estão de volta à cena. Ou quase todos: Rita e Liminha alegaram compromissos pessoais e não estão no novo grupo. Mas Rita apontou sua sucessora, numa escolha feliz: Zélia Duncan.

Mais tarde, o produtor inglês da BBC declarou que já podia candidatar-se a pacificador do oriente médio, por ter conseguido reunir novamente os Mutantes. Acho que nem mesmo ele sabe exatamente o que fez. Não sabe por inteiro o significado — não só para os irmãos — desse reencontro. Mas essa já é outra historia, e não sou eu quem a vai contar.

Resumindo: o show da volta acontece em Londres dia 22, no Barbican Hall. Os ingressos estão esgotados há semanas. Depois eles voltam ao Brasil, respiram fundo e partem para os Estados Unidos: New York, Los Angeles, San Francisco, Seattle, Denver e Chicago. Os ingressos? Adivinha…

Para mim, acompanhar tudo isso seria muito divertido, não fosse por uma coisinha só: Serginho resolveu incluir Bat Macumba no repertório. Ligou pra mim e disse:

— Tio, preciso de um pedal.

Serginho me trata sempre pelo carinhoso — e ridículo — apelido de infância (não, não vou dizer). Quando me chama de tio é porquê vem chumbo grosso. Quase nem quero perguntar.

— É? Qual?

— O do Bat Macumba.

Então era isso. O famoso efeito. Reconhecido por qualquer amante de rock digno do nome. Uma das obras primas do Té. Passei a fita da música na cabeça. Aquele efeito. Uma modulação. Um trinado superposto ao som da guitarra de Sergio Dias. Mais um elegante circuito eletrônico do mestre, que eu iria analisar, entender, transpor para a eletrônica do século 21 e reproduzir em toda a sua glória.

O que eu não sabia então, e que será revelado pela primeira vez aqui, no Assertiva, é que o efeito de Bat Macumba fazia parte de um plano. Um plano sinistro, indecente e fraticida de Sérgio e Arnaldo para levar o irmão Cláudio à loucura. Serginho inventara o efeito em sua cabeça só para pedir ao Té que o realizasse. Um som tão maluco, inédito e difícil que colocaria à prova não apenas a genialidade do irmão, como espicharia ao limite sua habilidade como montador de circuitos eletrônicos. Mas eu nunca botei os olhos no tal circuito, porquê ele nunca existiu.

O que o Té fez, da noite para o dia (a pressa fazia parte do insidioso plano), foi pegar primeiro o motor de uma máquina de costura (vai ver desmontou o da mãe deles — nem tive coragem de perguntar). Depois, conectou um controle de volume (potenciômetro para os técnicos) e o modificou, retirando seus batentes. Ligou-o ao eixo do motorzinho e mandou o Serginho pisar no pedal de velocidade, gasto pelo pé da costureira. O resultado você ouve em Bat Macumba.

O problema é que esse tipo de coisa dura exatamente um ensaio. Ou uma apresentação. Depois, só trocando o tal potenciômetro, que vai durar uma vez só, etc. Por causa disso, concordamos que o novo pedal deveria ser eletrônico. Um motor de máquina de costura eletrônico. Ah! — dirão os entendidos no assunto — isso é moleza. Um gerador de dente-de-serra de frequência variável para o envelope, um VCA e pronto. Qual é o problema? O problema, meu caro amigo, é que você não conhece o ouvido de um músico de primeira linha. E tenho certeza de que você NUNCA ligou um potenciômetro num motor de máquina de costura para ver o som que aquele troço faz.

Primeiro abordei uma solução digital. Ficou ótimo! Mas não era Bat Macumba. Entreguei os pontos e parti para uma solução que o Té aprovaria: um prosaico circuito analógico. Promissor, mas ainda não era aquilo. Além disso, dava pau. Dava pau na bancada. Dava pau no ensaio.

O estúdio na casa do Serginho, onde as músicas do show foram rearranjadas e ensaiadas, não é pequeno. Mas coloque nele dois tecladistas, um guitarrista, um baixista, uma cantora, um baterista, uma percussionista, um coro de duas pessoas, mais todos os instrumentos, amplificadores, estantes e a parafernália de praxe sem tirar o piano de cauda que já estava lá, e você não verá a cor do assoalho. Acho que tinha mais de um quilômetro de cabos pelo chão. Isso quando não chegava o pessoal da imprensa, da TV, da fotografia, e resolviam fazer um take no estúdio. Para o making off, entende? E tome gente, cabo, câmara refletor…

Uma bagunça. Mas eu estava vendo os Mutantes novamente. Todas aquelas músicas. A poesia do Arnaldinho, a guitarra mágica do Sergio e, claro, a voz e o charme da Zélia Duncan. E rezando para, daquela vez, o pedal funcionar direito. Finalmente, um dia Serginho sorriu e disse:

— Pára! Não mexe mais. É isso aí.

Assisti ao ensaio final no Palace, com o Bruno, o Walmir e o Piero. O terceiro de uma exaustiva série. O show tal como os europeus e os americanos o verão. Lindo. Emocionante. Alegre. Um belo e bravo show. Eles estão prontos. Para minha decepção, Arnaldinho pregou, compreensivelmente, antes da penúltima música: Bat Macumba. E eu não pude ver o meu pedal (desculpe, Té), em ação num palco de verdade.

Ontem, bem tarde da noite, levei ao Serginho a versão definitiva do pedal. Sua casa, finalmente, parecia a mesma dos velhos tempos de calma. Jantamos os três, sentados no sofá da sala de televisão, a boa e pedaçuda canja da Lurdinha, rindo e jogando conversa fora.