Balada do sapateiro

Balada do sapateiro

Ilustração: Iberá Junior

Tinha o nobre sapateiro
De nome José Monteiro
O gosto de apreciar
De mulher belo traseiro

Pois foi malvado o destino
Roubando do pobre o tino
Impondo-lhe um tal castigo
Que passo a mercês contar

Certo dia a oficina
Adentra bela menina
De tarefa incumbida
A mando do Seu Doutor

Que aplicasse o remendão
De presto e sem demora
Um salto de couro à roda
No sapato do patrão

E dito refestelou-se
Com preguiça no balcão
De pronto foi, debruçou-se
De costas para o artesão

Assim não se fez difícil
Com um rabo a vigiar
Dar cabo do seu ofício
Muito alegre a martelar

Tachinhas nos entredentes
Um olho na rapariga
E a evitar acidentes
O outro olho na batida

Depois de secada a cola
Costura já bem cosida
Comichão lhe dá na bola
De espiar a perseguida

E num ato tresloucado
Munido de uma sovela
Levanta com assaz cuidado
A barra da saia dela

Sente a bela o esfregar
Dos panos em sua coxa
E girando o calcanhar
Encara Monteiro a moça

Vermelho de envergonhado
Faz um gesto a disfarçar
E co’a mão mesma do espeto
Se finge que vai coçar

Hoje o pobre sapateiro
De nome José Monteiro
Quando prenda tem por perto
Prega um olho na batida

Mas o outro por cegueira
Pode só imaginar
Por causa de uma coceira
A bunda longe do olhar