Atração fatal

12 de abril

Querido Diário:

Eu a vi hoje de novo! Foi assim tudo muito rápido, refletida no espelho do saguão do hotel. Estava vestida com um desses terninhos que as executivas usam para impor respeito nas reuniões infindáveis em que gostam de se meter. Mas eu garanto que durante um átimo seu olhar cruzou com o meu. Ou, para ser preciso: o reflexo do seu olhar fez um breve contato com o reflexo do meu olhar. Quando virei-me para procurá-la – para confrontá-la talvez – ela já havia desaparecido no burburinho da calçada.

O mistério continua então. Tenho certeza de que é a mesma mulher que me assediou no baile do Pinheiros, no Carnaval. Seu rosto não se deixava ver por trás da máscara de Colombina, mas aqueles olhos famintos me seguiram por toda a noite. E o que diziam era perturbador, e minha incapacidade em traduzir a mensagem só fazia aumentar meu desconforto. Desafiavam, mais do que flertavam. Impunham, mais que convidavam. E nem mesmo tentava disfarçar seu interesse – fosse qual fosse – em mim. E quanto mais acariciava Marisa mais ela fechava o círculo em que dançava ao meu redor.

Juro que da próxima vez ela não me escapa. Vou comprar um desses celulares com câmara. E com sua fotografia nas mãos hei de encontrá-la. Alguém no clube há de conhecê-la, de saber quem é.

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5 de agosto

Querido Diário:

Ela está aqui, no avião. Não a pressenti até que as luzes se acenderam e a aeromoça anunciou o café da manhã. Mas agora a sua presença é tão palpável quanto a bandeja intocada à minha frente. Tão contínua e consistente quanto o zumbido dos motores. Se mergulha o jato em parafuso para espatifar-se lá embaixo no chão, não será tão abissal a angústia que me traz essa companhia que não vejo.

Ela está lá em cima na primeira classe, aposto. Já andei os corredores duas vezes, encarando todas as mulheres, sondando-lhes os rostos, arriscando-me a provocar a ira de um marido, um namorado ou mesmo um amigo que não gostará por certo de ter sua companheira tão descaradamente examinada por outro homem.

A estreita escadinha em caracol não subo, que o comissário já anda desconfiado de minhas andanças, e nestes tempos de terror vai mesmo interpelar-me, barrar minha passagem.

Preciso controlar a ansiedade. Manter a calma. Assim que o avião parar eu corro na frente e então ela vai ter que passar por mim. O celular está pronto. Ligo para Marisa e assim que ela aparecer eu clico.

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22 de outubro

Querido Diário:

Se ao menos eu soubesse o que ela quer, por que me persegue! Mal consigo esconder de Marisa os telefonemas no meio da noite, os recados no meu Orkut e os e-mails. Ontem apaguei doze. Doze! Quase sempre mensagens vagas, quando não vazias. E se copiosas são ininteligíveis, desconexas, embora possa ler no subtexto o erotismo, a urgência. Ela assina simplesmente EU. Assim mesmo, em letra maiúscula, mas eu sei que é ela. Ao telefone é sempre uma única palavra. Esta noite me chamou de usurpador.

Preciso ir ao médico. Essa bizarrice está acabando comigo, e vai terminar em insanidade se eu não fizer alguma coisa. Tenho mulher e filhos, uma família para sustentar. Não vou ver tudo destruído por um arremedo de Glenn Close. Por um simulacro de atração fatal.

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14 de dezembro

Livre enfim!

Foi demorado e muito, muito doloroso, mas agora já passou. Uma batalha mesmo. Um duelo digno de uma mulher de fibra, mas por fim ele se foi. Morreu. Esvaiu-se, não sem protestar, mas não importa. Eu venci.

Já chamaram o meu vôo. E vou finalmente poder viajar leve, sem aquela gravata ridícula. Ainda com as roupas dele, mas pelo menos eu consegui roubar uma calcinha da Marisa. Que depois da cirurgia, em Paris onde mais? o tecido vai ajustar-se melhor ao meu novo corpo.

Decidi continuar a escrever. Talvez um dia publique minhas memórias, e a parte dele vai ser um contraponto bem interessante. Só dispenso aquela coisa de “querido diário”. É coisa de viado.

Imagem: Piscadela, de Juliana Montenegro
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