As amarras e o pintor

Ao ler uma postagem do amigo António Tapadinhas – ilustrada com sua própria pintura que ora roubo – correu-me a poesia. Trouxe-me o tempo em que, abraçado ao brandal, de pé na proa, eu sabia todos os nomes. Ao amigo dedico, pois, o poema.

Ao cabo perguntava o seu pintor
O ganho que rendia à pensa corda
ser uma amarra triste e sem valor
quando sem barco nada mais que morta

Inveja sentiria dos estais
a balouçar nas ondas e no vento
assoviando versos às sereias
fazendo coro às vozes dos brandais

Não ter jamais na vida a alegria
de aguentar o pano a barlavento
ou revoluta como um lais de guia
fazer-se e desfazer-se em nós ao tempo

antes trabalha só quando sujeita
ao cais imundo irmãos de bom massame
acovardado os mares não enfrentas
em pau, sem proa, é só e sem velame

Retruca o cabo ao moço em tom veraz
é fato que não sou um amantilho
nem um cabresto, nem um patarraz
nem em convés por certo me enrodilho

Nem silvo quando vem a tempestade
nem sei o gosto de à água um beijo
nem mesmo se me desse a liberdade
um marinheiro em bêbado desleixo

Escreve pois aí com teus pincéis
que meu labor ao fim se equilibra
É um dinheiro não medido em réis
que dá valor a cada minha fibra

nas mãos do estivador meu soldo
é marca que lhe deixam cabos
quando agradece ao fim de uma jornada
a honestidade impressa nos seus calos