Anatomia de um grande líder

A primeira escola que conheci na vida foi em Campos do Jordão. Jardim da Infância. E foi lá que conheci o primeiro crápula — de tantos — que atravessariam meu caminho. Era o Bezerra, um menino grande e um pouco mais velho que os demais. Cabelo crespo, rosto largo, boca grande e beiçuda, voz esganiçada. Era grande, e me lembrava um boi. O Bezerra infernizava a vida de todos. Roubava lanches na hora do recreio, dava cascudos nos menores e, se ameaçado, corria para uma das freiras e contava uma estória mentirosa para provocar algum castigo. Ninguém fazia nada, com medo do nefando “Eu pego você lá fora”.

Já maior, com meus doze anos, cometi um erro. Desses que a inexperiência da infância nos brinda como parte do aprendizado da vida. Office-boy que era, perdi um envelope com 25 cruzeiros, sabe Deus de que modo, no trajeto para o banco. Durante o qual, é claro, parei para namorar um microscópio na Óptica Santista, a estatueta de uma bailarina particularmente sensual na vitrine da Casa Leipzig, e as novidades na livraria da Rua Riachuelo. Minha mãe, austera, cobriu o prejuízo, mas obrigou-me a pedir desculpas ao nosso patrão comum, um homem chamado Antenor Garcia Rocha, respeitado pilar da sociedade santista. Assim eu fiz, crédulo do valor da hombridade. O homem não se deu ao trabalho de me ouvir. Fui despedido e ainda com a pecha de ladrão. Sem direito a defesa. Mas reconheço que devo ao velho Antenor (que Deus o tenha), minha saudável desconfiança de autoridades em geral.

Aos dezoito, foi a vez do Zé Lauro. O sujeitinho me roubou um gravador Crown. Não encontrando o ladrão, fui procurar seu pai que me disse não ser problema dele. Mais tarde o Zé justificou o furto dizendo que o produto do roubo havia sido doado a uma célula revolucionária local, e que seria usado pelos comunistas para ajudar a libertar o povo brasileiro da opressão. O episódio selou minha opinião sobre comunistas, socialistas, esquerdistas e revolucionários em geral. Quanto ao Zé, desentendeu-se com com os espertalhões “libertadores”, e teve de sair da cidade para salvar a pele. Não era um mau sujeito. Apenas estúpido.

Ao longo dos muitos anos seguintes, conheci pulhas menores, cujas características não servem ao propósito desta crônica.

Ressalto apenas um ex-chefe, já em tempos mais recentes, de nome R* (preservo a identidade do camarada por razões óbvias), figura acabada do arrivista puxa-saco. Freqüentava a igreja com fervor, bajulava seus superiores descaradamente, e cumpria as diretrizes da matriz mesmo sabendo que não aumentariam em um único cent o faturamento da empresa no Brasil. Pedi minhas contas em uma mesa de lanchonete em São José da Califórnia, depois de ouvir do sujeito uma preleção de como subir na vida — segundo ele próprio.

E por que estou eu a lembrar esse seleto grupo de fantasmas? É fruto de um exercício que fiz hoje à tarde, a caminho de casa depois de um dia de trabalho, e após ouvir uma propaganda do PT. Tentava construir, a partir de retalhos de personalidades de pessoas que conheci, a personalidade do grande líder Luis Inácio da Silva, o Lula.