Amelinha

Em 1969 alguns nomes faziam meu coração pular. Nomes como Miranda, Mamiya, Hasselblad, Vivitar. Nada de Canon nem Nikon que, embora já fossem famosas e desejadas, não faziam a minha cabeça. Afinal eu era muito exigente como fotógrafo.

Fotografia era mais que um hobby: era uma paixão. Fiz curso e tudo, e ainda montei um pequeno laboratório em casa. Tenho uma galeria inteira das máquinas que possuí, e vou mostrá-las eventualmente. Cada uma delas tem uma história.

A Amelia (Amelinha para os íntimos), era uma Ricoh Singlex TLS. Sem dinheiro para comprar a máquina dos sonhos, a Ricoh reunia qualidade e era uma legítima reflex TTL 35 mm. Recentemente descobri que o modelo foi a segunda opção de muitos fotógrafos profissionais pela robustez, precisão e qualidade de suas lentes. Além disso, seu corpo aceitava objetivas de modelos mais caros, deixando aberta a porta para upgrades.

Amelinha documentou praticamente todas as fases da construção da Rodovia dos Imigrantes, pela minha mão e a de Jorge Alfredo Gomes Lemos (então Diretor de Comunicações da DERSA).

E documentou também toda uma fase da minha vida. Fotos? Não tenho. Estão espalhadas entre a casa da Ziza, da Tânia e do próprio Jorge.

Um dia particular de aventura com a Amelinha foi quando (colocado numa fria adivinha por quem?) fotografei um acidente de avião lá para as bandas de Ribeirão Pires.

Tarde fria e chuvosa, voltávamos de mais um sábado de fotografias no trecho da serra quando Jorge resolve perguntar a um policial como estavam as coisas. Tudo bem, a não ser pelo avião que caíra lá nas bandas de Ribeirão Pires. Jorge não tem dúvida: manda o motorista tocar para lá. Uma vez repórter…

Saímos da estrada e encontramos um bando de jornalistas furibundos. A perua do Estadão encalhara, impedindo a passagem dos demais até o local do acidente. Quem quisesse que fosse à pé. Jorge puxa conversa com um colega da Folha e descobre que o homem tinha mais um problema: seu fotógrafo não aparecera, e logo estaria escuro.

Valendo-se do livre trânsito entre seus pares, Jorge oferece meus serviços (sempre eu na fria…) e consegue um rolo de Tri X Pan emprestado sei lá de quem.

Caminhamos um quilômetro, o repórter e eu, afundando o pé na lama e debaixo de chuva. A Amelinha por baixo da jaqueta. A cena, para quem a quiser descrita, está no primeiro capítulo do meu inconcluso livro, já postado aqui .

O fato é que a foto foi para a capa da edição de domingo.