Aguenta, coração

Um enfarte. Sempre ouvi dizer que esses sustos são experiências transcendentais, daquelas que mudam a vida do sujeito para sempre. A partir dela o vivente, agora mortal, passa a viver um dia de cada vez. Assim como se fosse o último. O céu fica mais azul, os passarinhos cantam com redobrada maviosidade, as flores escandem suas cores em nossas retinas, o amor abunda em nossos corações e o milagre da vida ganha místicos contornos.

Porra nenhuma.

O céu está mais ou menos um cerúleo compatível com o mês de março, o bem-te-vi que ouço agora soa igualzinho que há vinte dias, as flores estão até um pouco mais chochas com o calor, o amor à bunda continua em meu coração – só que agora desentupido – e o milagre da vida segue do jeito que sempre foi: milagrosamente.

A única diferença, pelo que vale, é que estou vivo para contar.

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E obrigado a todos pelas visitas, mensagens, votos, rezas e pajelanças em geral. Recompensá-los-ei com apetitosas estórias de UTI.

Meus filhos, exemplares, fizeram-me extensa companhia no hospital (mesmo você de longe, Dan) e amenizaram em muito os momentos mais tensos. Idem o Walmir, de saúde meio abalada e tudo.

Excepcional a equipe da Unidade de Cuidados Intensivos em Cardiologia do Hospital Samaritano de São Paulo. São tantos que não dá para citá-los sem cometer feia injustiça. Digo apenas que o “tratamento humanizado” constante do folder do hospital é um fato.

Abro uma exceção para nominar e agradecer ao Dr. Francisco de Paula Stella. Ele conseguiu, ao perceber imediatamente estar tratando com um maluco, exorcizar meu pânico explicando os fundamentos da mecânica dos fluidos à hemodinâmica antes de enfiar fibras ópticas e molinhas de aço inox pelo meu corpo adentro.

E, é claro, a Cris, que além da força ajudou com seu conhecimento da área a desenrolar o imbróglio armado – ou quase – pelo meu seguro-saúde.

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E nesta fase em que os médicos recomendam fugir de aborrecimentos, nada como andar pelos blogs nem que seja só para ver como vocês todos passaram na minha ausência (muito bem, por sinal).

Desopilei o fígado e mijei de rir ao descobrir que fui taxado de “pacifista” pelai. Juízo, meninos, juízo.