A vida não se clica

(Prefácio a um poeminha despretencioso)
Manhã de sol, saio de casa neste sábado (cedinho!) sentindo-me esquisito de tão bem humorado. Na padaria, baguete no sovaco, espero a vez na fila única dos caixas. O da esquerda é guarnecido por uma falsa ruivinha de sorriso bonito e cinturinha fina. Quero pagar naquele! Vagou o caixa da direita e eu, distraído com coisa mais importante, não vi. O sujeito de trás me cutuca. Não um cutucão educado, desses de Facebook. Mas um daqueles cutucões discursivos, do tipo “anda-velho-filho-da-puta-vê-se-presta-atenção”.

Generosamente (bem generosamente) eu me viro, faço uma mesura e cedo minha vez ao jovem lagatão, malhado e esbaforido. E consigo, é claro, minha vez à esquerda. Sim, o decote era generoso e sim, ela virou-se para apanhar o chiclete que eu TANTO queria. E sim, ela tem um belo traseiro. À saída vejo o rapaz buzinando para o motorista que, à sua frente, manobrava o carro para encaixá-lo na vaga estreita.

Encarei-o. Ele me viu. Brindei-lhe com um sorriso celestial, discursivo, do tipo “passou-por-ti-uma-bela-bunda-e-não-viste-babaca”.

Rindo a caminho de casa construí um poeminha safado que passo a compartilhar com vocês.

Click! Azia, má digestão?
A justiça no portão? Ai!
A fila não anda
O dia não chega
Humor que desanda
Ó vida pelega!
É um torvelinho
E nessa embolada
Tu roubas a vaga
Do chato velhinho
O carro da frente
Um bicho preguiça
Atrasar certamente
Buzina, buzina!
Mulher que não chega
Já faz meia hora
(Eu mato essa nega depois jogo fora!)
O chefe te chama
Atende, ora pois!
Tu podes deixar
O xixi pra depois
Apressa, depressa!
É muita lerdeza!
O tempo não cessa
Cadê a presteza?

(Agora para! Respiiiira… Assiiiimmm, assim. Isso.)

Aprende, infeliz
De um velho pardal
Que vai te ensinar
O essencial:
Ouvi, não olvides
Nasceste pelado
Por mais que duvides
Sem mouse no rabo
Escuta infeliz
Ó ser miserável
A vida que diz:
“Eu não sou clicável…”