A parábola chinesa

Ando me debruçando sobre a história da China ultimamente. Procuro o evento que interrompeu o desenvolvimento do país, há dezenas de séculos. A matemática, a ciência e a tecnologia chinesas sofreram um ponto de inflexão em algum lugar do passado. Vou achar. É um exercício interessante.

A idéia me veio ao assistir, no History Channel, um desses documentários que procuram mostrar como são extraordinários esses sujeitos que, há milhares de anos, já se destacavam nos esportes enquanto nossos antepassados ocidentais ainda jogavam bocha com pelotas de bosta de vaca.

Os chineses eram exíminios (e temidos) arqueiros. E torneios de arco-e-flexa eram muito populares. O que não consigo entender é como esse povo milenar nunca avançou na descrição da trajetória da flexa (ou de qualquer outro corpo lançado ao espaço), a parábola. Porque é que enquanto os gregos já produziam notáveis avanços que fundamentariam a geometria, nenhum chinesinho curioso se perguntou qual seria a relação entre o ângulo inicial da flexa, a tensão do arco e o ponto em que ela cairia?

O mais provável é que tal chinês tenha existido. Por alguma razão suas idéias – e escritos – se perderam. É curioso que possamos encontrar a solução chinesa para o triângulo retângulo mais ou menos no início da Era Cristã, 500 anos após Pitágoras ter realizado o mesmo feito. Depois a coisa se arrasta em banho-maria até 1611, quando a matemática ocidental passa a ser conhecida no Oriente e alimenta o conhecimento dos chineses (mas não sua tecnologia).

Em algum momento nesse milênio e meio a ciência e a tecnologia chinesas estacaram. Daí ter que estudar a política e a caminhada social chinesa para entender porquê.

Enquanto isso a China moderna vai mostrando sua cara nessa eviscerante superexposição provocada pela Olimpíada. Ao lado de um povo que lembra em grande parte o brasileiro – cordato, submisso e resignado diante do Grande Irmão – a ditadura comunista tenta controlar a informação diante dos ocidentais, espanca jornalistas japoneses, mente e oculta.

Em Pequim, caríssimos monumentos com nomes poéticos construídos a partir de conhecimento ocidental e equipados com tecnologia idem aguardam o início da festa, enquanto em cidades inteiras destruídas pelo terremoto o povo se vira para sobreviver sem que o governo lhes envie sequer um prosaico trator para remover o entulho. Ainda há corpos de crianças sob os escombros de uma escola, três meses depois da tragédia.

O contraste é mais que indecente. É brasileiramente pornográfico.